Flanando pelo domingo

"Uma folha de amendoeira cai, lentamente, diante do meu rosto. Por breve e fantasioso instante, vejo-me num filme americano, onde belas e rubras folhas se entregam ao frio." 


REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____Saio do mercado com duas sacolinhas. Não me custaram os olhos da cara — ainda os conservo, míopes e estrábicos —, mas levaram um bocado dos meus reais.

_____ “A vida anda cara”, sentenciou um sujeito na fila.

_____Não discordei. Como hoje é domingo — e domingos não foram feitos para lamúrias nem resmungos —, paguei a compra e saí.

_____Passa um pouco do meio-dia. A rua, quase deserta. Recordo uma quadrinha de minha meninice: meio-dia, panela no fogo, barriga vazia... Era o que dizia — repleta de ilustrações coloridas e versinhos — a cartilha com a qual eu brincava de escolinha.

_____Um quadro-negro, uma caixa de giz, a cartilha. Eu, uma cômica mistura de Raimundo Nonato e Girafales — sem bigode nem charuto; meio exigente, meio jocoso.

_____O mundo deu voltas e cambalhotas: nunca ganhei a vida em sala de aula.

_____Desço a rua.

_____O silêncio pede que eu reduza a marcha. Oh, vontade de ficar por aqui, simplesmente contemplando o dia! Receio, porém, parecer ridículo. Afinal, se visse alguém parado entre a igreja e a prefeitura, também o julgaria ridículo. Desocupado, com certeza.

_____Sigo.

_____Atapetada de folhas avermelhadas, a praça se entrega ao sol — hóspede raro nesta época. Um cão vadio lagarteia; o velhinho sentado no degrau do coreto parece imitá-lo. Uma folha de amendoeira cai, lentamente, diante do meu rosto. Por breve e fantasioso instante, vejo-me num filme americano, onde belas e rubras folhas se entregam ao frio.

_____Nessas horas, dou razão à canção quando diz que “no outono é sempre igual / as folhas caem no quintal”... Sem quintal nem outono cinematográficos, contento-me em flanar pela praça enquanto o sino anuncia meio-dia e meia.

_____De repente, noto: o busto de Celso Machado não está em seu costumeiro lugar. Quem levou o Celso — e para onde? Pergunto ao pombo que zanza pelo gramado. Sem resposta, encaro novamente a pilastra despida.

_____Parado feito uma estátua mal-ajambrada, recordo um trecho do livro que li pela manhã. Algo sobre a História ser um apanágio de eruditos que discutem, debatem, comparam e jamais chegam a um acordo sobre as ideias mais elementares.

_____Entristece-me pensar que, entre as palavras de Dostoiévski e este domingo de outono, transcorreram mais de cento e setenta anos. Todavia, como não pretendo bancar o erudito, o pernóstico nem ser mais um chatonildo de plantão — repito: domingos não foram feitos para isso —, sigo andando.

_____A boca pede um chocolatinho. Não devia, eu sei. Mas a tentação é colossal. Há quem se entregue aos deleites carnais, aos desatinos do tabagismo, à jogatina inconsequente... Eu me entrego, de corpo e alma, à mesa. Um dia prestarei contas deste meu pecadilho. Por ora, devoro doces e chocolates. Desabridamente.

_____Saio da drugstore — a cidade está mesmo chiquetem até drugstore — levando uma sacola. Ah, a ditadura do plástico. É terrível! Mas, como não tenho vocação para subversivo, vai outra sacolinha para casa.

_____Deixo esses pensamentos para trás.

_____Apresso o passo. Quero me livrar dos trajes de domingo, guardar as sacolas e devorar minha guloseima.    

_____Apressado, piso num peloto de bosta.

_____Esquecido de que domingos não foram feitos para queixas nem pragas, amaldiçoo o cagão que deixou aquele presente na calçada. 


IMAGEM DA PUBLICAÇÃO: criada pelo ChatGPT (enviada pelo autor) 

 

Mineiro da cidade de São Geraldo, graduado em Direito e História, Servidor Público, escritor de contos, poemas e crônicas. Publicou "Confissões", pela Editora Porto de Lenha, e "A vida segue" pela Caravana Editorial. Divulga seus escritos no blog "Reminiscências Literárias", Facebook, Instagram e no site "Recanto das Letras". 

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O articulista atua como Colaborador deste Blog e o texto acima expressa somente o ponto de vista do autor, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

                                        

Comentários

  1. Enquanto "Celso Machado", provavelmente, se lava, o autor se suja. Muito boa, Raphael. Parabéns! 👏

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    1. Obrigado. Imagino que o Celso foi se lavar no Rio Nilo porque faz tanto tempo que ele foi que deveter se perdido por lá.

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  2. Adorei! Parabéns Raphael!

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  3. Meu novo mantra será "Domingos não foram feitos pra lamúrias nem resmungos"

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