“Fecho o livro, dou outra mordida no sanduíche. O gosto de queimado se espalha pela boca."
REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica )
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_____Na cantina, leio versos de Manuel Bandeira. Enquanto isso, a sanduicheira esquenta meu pão com queijo.
_____O tic tac do relógio preso à parede parece infindável.
_____No banheiro, alguém dá descarga. Suspendo a leitura, miro o led da sanduicheira, pergunto: “de quem foi a bendita ideia de construir o banheiro geminado à cantina?”
_____Passos. A porta do banheiro se abre. Mais passos.
_____Tentando competir com a outra, a porta da cantina abre ruidosamente. Núbia entra, me olha de esguelha.
_____Torno aos versos.
_____Ela abre a geladeira, pega a caixa de leite, resmunga: “tem coisa queimando aí”.
_____Sou forçado a concordar: entre um verso e outro, zás, o led acendeu e eu não notei.
_____Queijo e pão chamuscados. Núbia me encara com o copo de leite na mão. “Já comi coisa pior”, penso em dizer. Contudo, contenho o verbo: ela vai entender a ironia, vai querer esticar o assunto, talvez tirar satisfação... Como fez naquele dia quando, aproveitando que substituía o chefe, partiu para cima de mim exigindo relatórios que não eram de minha responsabilidade. Eu a critiquei, ela não admitiu e, não fosse a intervenção de Teodora, estaríamos discutindo até hoje...
_____Ponho o sanduíche no pires, volto à cadeira. Pego o livro.
_____Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos
____Como e leio: melhor que olhar para a cara-de-sapo da Núbia.
_____O tic tac do relógio prossegue, nunca pára... quer dizer, pára no final do ano, quando o chefe tira as pilhas. Há uns dois anos lhe perguntei porque fazia isso. “Não vai ter ninguém pra olhar as horas no recesso”, foi a resposta. Guardou as pilhas na gaveta, largou o relógio em cima da geladeira, saiu desafivelando o cinto.
_____ “Leu muita revistinha do Tio Patinhas e deve ter assistido à novela do Nonô Correia”, lembro-me de ter resmungado, enquanto, no banheiro, o chefe não economizava em sons que onomatopeia alguma é capaz de expressar.
_____Núbia senta-se de frente para mim. Coloca o copo na mesa, pigarreia. “Será que existe essa palavra ‘pigarreia’? Se não existe, olha eu aí bancando o Rosa”, penso, virando a página.
_____“Escuta”, ela diz.
_____Lá tenho a mulher que eu quero. Na cama que escolherei
____Paro nesse verso, olho os olhos estrábicos de Núbia.
_____“Na próxima sexta, vamo reunir no sítio da Teodora. Pra comemorar os índices que a gente alcançou esse mês. O chefe, graças ao Senhor, tá satisfeitíssimo com nosso empenho e com os resultados alcançados... Diz ele que, nesse ritmo, a gente vai bater a meta antes de dezembro... Aí me pediu pra organizar um encontro. E a Teodora, sempre prestativa, ofereceu o sítio.”
_____Fecho o livro, dou outra mordida no sanduíche. O gosto de queimado se espalha na boca. “O jeito é me contentar com isso, ou comer aqueles sequilhos intragáveis que o chefe me ofereceu mais cedo”, resigno-me.
_____Tic tac tic tac
_____“Quem dera dezembro estivesse batendo na porta”, penso, enquanto a descarga dispara outra vez, levando restos de alguma humanidade para o rio que passa aqui atrás.
_____“Sexta não posso. Tenho reunião no centro espírita”, digo, levando o sanduíche de novo à boca.
_____Núbia esboça um esgar com sua boca de caçapa. Sim, eu já devia ter me acostumado com isso, mas é difícil. Mais que difícil, é medonho, é irritante... é, como direi, a síntese da sua mente apequenada: Núbia crê que eu seja macumbeiro, feiticeiro ou coisa semelhante. Para ela, todos que não frequentam o culto “vivem em pecado e encontrarão a danação no pós vida”. No passado, tivemos vários entreveros por conta disso; ultimamente, passei a ignorar seus comentários e, agora, entrei na fase de tentar suportar seu esgar asqueroso.
_____“Não podemos mudar o dia”, sentencia, levantando-se. Joga o resto do leite na pia, abandona o copo junto com os pratos e talheres que outros companheiros usaram.
_____“Se o chefe te perguntar, diga que o convite foi feito...”
_____“Como se ele fizesse questão da minha presença”, penso, observando-a sair, toda empertigada.
_____O tic tac do relógio me enerva.
_____Não lembro mais em qual verso parei.
_____Pego a garrafa, entorno o resto do café no único copo que deixaram limpo.
_____O gosto de queimado persiste. Queimei a língua, acho, quando dei a primeira mordida.
_____A descarga soa outra vez. “Parece as cataratas do Niágara”. Rio de minha analogia, afinal, nunca fui às cataratas do Niágara...
_____Tic tac tic tac
_____O relógio avisa: devo retornar ao expediente.
_____Ah, se eu fosse amigo do rei, certamente não precisaria passar por tudo isso, toda tarde.
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