Antes da Luz se Apagar

"O café morno, os encontros breves, os acontecimentos inesperados, os mais banais gestos íntimos, o reconhecermo-nos naqueles que espelham uma parte nossa." 

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____É assim a vida, como o terminar e o iniciar de cada novo ano. A maior parte das vezes, um lugar-comum. Sem grandes acontecimentos, nada de memorável, nenhuma tragédia. Sem mudanças. Sem surpresas. Escorre na sua sucessão de quase-nadas que nos exigem um esforço mínimo. O “igualmente” a quem nos desejou bom dia, o aceno que devolvemos a um desconhecido, um gesto que ficou além ou aquém da intenção, algumas palavras atiradas fora de tempo, a súbita resposta automática ou ainda a promessa que fazemos com convicção e, de seguida, abandonamos rapidamente.

_____Esta manhã marquei aquele café adiado com o João. Amigo de longa data, aguardei-o na minha mesa de sempre junto à janela, com o reflexo da rua movimentada estampado no vidro. Sei que o João chega sempre depois das horas combinadas e, no entanto, pedi os dois cafés como se acreditasse que isso poderia antecipar a sua companhia.

_____Ele chegou. Pousou o casaco nas costas da cadeira com cara de quem já tinha estudado, pelo caminho, o seu pedido de desculpas.

_____— Cheguei a tempo? — perguntou.

_____Respondi-lhe que sim. Que chegava sempre a tempo. Mesmo que o café dele já estivesse frio. Não me senti impaciente com a sua demora. Já há muito aprendi que ninguém nos chega tarde, mas no momento devido.

_____Ele sorriu de alívio como se tivesse sido absolvido de um pecado menor.

_____Conversamos sobre factos triviais. O trabalho acumulado, o seu novo chefe que parecia demasiado velho, o meu corpo a protestar sobre aquilo que a cabeça ainda não se decidiu a admitir.

_____A certa altura, ele pousou a chávena vazia e ficou a olhar para ela como se analisasse um objeto estranho.

_____— Tenho a sensação de que não consigo parar, que estou sempre a começar qualquer coisa... — disse-me, quase numa confissão.

_____Observei-o sem lhe responder. Também me sinto assim, num eterno ponto de partida, suspenso em qualquer lugar que me parece provisório. Cansado de chegar a lugar nenhum.

_____Despedimo-nos sem pressa.

_____— Temos que combinar um almoço lá em casa.

_____— Temos, sim.

_____Sabíamos os dois que provavelmente não. Expectativas civilizadas sobre momentos que dificilmente chegarão a cumprir-se. E nenhuma mágoa desperta disso.

_____No caminho de regresso a casa liguei à minha mãe. Não tinha razão concreta nem nenhum assunto urgente. Poucas vezes tenho.

_____— Então?

_____— Nada. Só liguei.

_____Falámos de coisas simples que a recordação não guarda. O tempo, o almoço, a dor na perna que tinha voltado, o casamento da filha da vizinha do segundo andar. Perguntou-me se eu estava a comer bem e eu perguntei-lhe se já dormia melhor.

_____— Estás cansado — afirmou ela.

_____— Um bocado.

_____— Pois... eu também.

_____E, depois, um silêncio confortável entre nós. Existe nele um entendimento que não tem necessidade de minuciosidades nem de explicações. É assim o amor quando nos adivinha completamente mesmo sem nos revelarmos.

_____Desligámos sem formalidades. É bom sentir que, distante, esse amor nos ampara e equilibra.

_____Quando cheguei ao prédio fiquei trancafiado no elevador com o vizinho de baixo, o Sr. Américo, carregado com compras. Conhecia-lhe o rosto pelos “bons-dias” e “boas-noites” mas nunca lhe tinha usado o nome.

_____— Isto, hoje, está vagaroso... — comentou.

_____— Como nós.

_____Ele riu-se. Um sorriso fácil e acolhedor. E eu ajudei-o com os sacos pesados presos nos seus braços delgados.

_____Durante alguns minutos fomos cúmplices pelo acaso do destino. Comentámos sobre as falhas da luz das escadas, o preço da comida, os planos que nunca se concretizam. Quando o elevador voltou a andar e cada um seguiu para o seu piso, ali deixámos ficar, abandonado entre andares, um inédito fragmento de familiaridade.

_____À noite fui jantar com uns amigos. Uma mesa grande para um grupo pequeno, uma refeição corriqueira e despretensiosa. Discutiu-se o último filme pelo qual valeria a pena ir ao cinema. Surgiram algumas histórias de passados distantes quando éramos crianças e tínhamos curiosidade sobre tudo. Agora somos adultos, deixámos cair as perguntas pelo caminho e fingimos que já sabemos tudo.

_____Para além disso, só redundâncias. O copo de vinho que se entornou e alguém se apressou a limpar, risos breves, gargalhadas esporádicas, o silêncio depois da sobremesa e uma voz que soou, pacificamente:

_____— Vou andando, hoje tenho que deitar-me cedo. Amanhã é dia de trabalho.

_____Ninguém respondeu. Mas todos concordaram.

_____Foi um jantar com aquela normalidade que serve, sobretudo, para nos obrigar a fazer uma pausa e nos preencher por dentro. Permanecermos juntos uma ou duas horas sem a preocupação de provar seja o que for. Que se é interessante, que se gosta de impressionar, que se sabe inspirar. O conforto de não ter que tentar ser a melhor versão de nós mesmos.

_____Antes de ir para a cama pus a tocar um velho vinil, com essas músicas que só comovem quem as sente na memória, e tomei um chá quente. Escutei-o enquanto abri um caderno encontrado entre os livros desarrumados da estante. Estava em branco. Pensei em todas as listas que fiz para começar, para melhorar, para deixar. Intenções que protelei. Decisões que nunca tomei. Voltei a fechá-lo. Talvez nem tudo o que deixamos por escrever nos faça falta. Não seja para corrigir. Apenas para respeitar.

_____Desliguei as notificações do telemóvel e adormeci.

_____Gosto destes dias. Dias em que a vida não nos cai em cima. Não nos magoa, não nos grita, não nos abana, não nos exige passar com distinção. Acorda para se instalar e fica, silenciosamente, à espera que reparemos nela.

_____Parece, mas se calhar apenas parece, que nestes dias tão normais, a vida não tem forma nem lugar. Que nada acontece. Se calhar, depende do modo como olhamos para as coisas. O café morno, os encontros breves, os acontecimentos inesperados, os mais banais gestos íntimos, o reconhecermo-nos naqueles que espelham uma parte nossa. No fundo, o tudo em que a vida mais se revela e, curiosamente, nos faz sentir em casa.

_____E, acima de tudo, percebermos que não estamos sozinhos nisto. Todos conhecemos estes dias que acontecem sem linhas sublinhadas. Esta não obrigação de estar sempre no timing certo. Cruzamo-nos, por aí, mais ou menos inteiros, mais ou menos desarranjados, na nossa imperfeição humana que poucas vezes temos coragem de confessar.

_____E talvez seja ela que tantas vezes nos faz adormecer, à noite, com a sensação de paz, antes da luz, definitivamente, se apagar. 



 TEXTO: Paula Freire 

SITE: Nas Minhas Linhas te Confesso... - Crónicas 

Paula Freire é natural de Lourenço Marques, Moçambique, e reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Auto-Conhecimento, bem como à prática de clínica privada. Desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, tendo colaborado regularmente com publicações em meios de comunicação da imprensa local. Prefaciadora e autora das imagens de capa de várias obras no campo poético e narrativo, tem publicado dois livros de poesia, "Lírio: Flor-de-Lis" (Editora Imagens e Publicações, 2022) e "As Dúvidas da Existência: no heteronímia de nós" (em coautoria com Rui Fonseca, Farol Lusitano Editora, 2024). Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza, tendo organizado uma exposição com trabalhos seus, na cidade do Porto (a convite da Casa da Beira Alta), em setembro de 2022, sob o título: "Um Outono no Feminino: De Amor e de ser Mulher".

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