Tudo é motivo de alegria

"Aqui não é apenas um sol - é um acontecimento. Foi preciso vir à terra do Amado Jorge para ver, ou melhor, sentir com minha própria pele." 

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____O sol queima de um jeito diferente — bem que amigos alertaram quando comentei que passaria as férias aqui. Exagerados, pensei. Agora vejo: estavam certíssimos. Inconteste, o sol subjuga incautos turistas como eu. Não é, porém, a primeira vez que isso me acontece: ainda lembro dele tonteando minha mente vestibulanda quando tentava memorizar nomes e características dos escritores regionalistas.

_____Caminhos árduos e pedregosos, aqueles: resenhas intermináveis, inscrições pra preencher, taxas a pagar — e a angústia de tudo virar poeira na virada do ano. Esse tempo se perdeu sob outros sóis. As apostilas de literatura e os sonhos adolescentes — assim como as profecias e o bug do milênio — ficaram esquecidos. Não fui aprovado na tão almejada federal. Mas continuo de pé, firme e (nem tão) forte, escrevendo minhas bobajadas.

_____Voltemos ao sol.

_____Aqui, não é apenas um sol — é um acontecimento. Foi preciso vir à terra do Amado Jorge pra ver, ou melhor, sentir com minha própria pele.

_____A tarde roça, folgazã e sensual, a orla. Estou naquela que foi a primeira capital da nação, e nada — nem a ausência de programação da excursão, nem a inclemência solar — me manterá cativo no quarto.

_____Até porque é impossível ficar um minuto a mais no hotel: obras e obreiros em tudo quanto é andar, andaimes e carretilhas amontoados, pedra e areia espalhadas, um pá-pá-pá contínuo martelando paredes, makita mutilando cerâmicas, betoneira girando in-ter-mi-na-vel-men-te... Antes que perca a estribeira e berre umas verdades à agente de viagens que me alojou neste canteiro dos infernos, vou medir rua.

_____Deixo o quarto, atento pra não pisar no punhado de pregos largados ao lado de um saco de cimento. A cópia mal-ajambrada do Munch, desesperançada, grita: “Tira esse pó de cima de mim!”

_____Tadinha. Se não limparam sequer as janelas e o piso...

_____No corredor que liga os fundos — onde me enfiaram, a título de hospedagem — aos arejados quartos da frente, sou forçado a ceder passagem a serventes que carregam tábuas gastas e baldes com pedra britada. Eles parecem se divertir com minha cara de tacho.

_____Entre a tela do Caribé e o sol em xilogravura, caibros, ripas, esquadrias, sarrafos. 

_____Maldita agência de viagens, resmungo, galgando de dois em dois os degraus.

_____Três italianos desembarcam do táxi. A morena que os recepciona ri pra mim — ou talvez de mim, vá saber. Todavia, esta petulante Gabriela não merece que despeje minha ira ­— e outros sentimentos rasteiros — sobre seu sorriso de canela.

_____Largo a chave no balcão. Passo pelo trio, que parece não se entender com o taxista. Ah, amici italiani, sei bem como é ser extorquido.

_____Caminhando por uma babel de sotaques e gírias, sou interrompido a cada passo. Mãos inconvenientes e um tanto atrevidas tentam me empurrar roteiros inusitados, acepipes de comer rezando, promessas de édens terrestres regados a álcool — muito álcool.

_____Um sujeito, desses de bigode fino e molejo leve, aproxima. Íntimo, toca meu ombro; num sorrisinho malicioso, oferece uma experiência — “Única e inesquecível, meu rei!” — num sobrado aqui perto.

_____Ressabiado, e sem o menor interesse em saber quanto custará a tal experiência, me misturo aos atletas que correm no asfalto.

_____ “Quero só ver quanto tempo dura o fôlego desse cabeça-de-bagre”, provoca o sol, ainda grudado no meu cangote.

_____Mais adiante, um fuzuê. Briga? Festa? Trio-elétrico? Na dúvida, desço à praia, onde dois rapagões dividem um beque massa. A maresia é forte — mais forte que o sol que, sem nuvens onde sossegar o facho, resolveu me aporrinhar.

_____Decidido a ouvir o que o mar tem a dizer, largo camisa e chinelos na areia. Mergulho, enfim, neste mar-grande que avistou os primeiros conquistadores; mar sem-fim que tanto inspirou Caymmi; mar-moradia que levou muito personagem pro reino de Aiocá.

_____Ondas, afoitas como moças em flor, sobem e descem. Aos poucos, o sol se põe entre reformados hotéis. E a brisa, entre os ilícitos risinhos da juventude, sussurra: “Hora de merendar”.

_____Regresso ao canteiro de obras. Pelo basculante quebrado, os pés de um pedreiro. Ele assobia um axé antigo; lembro as tardes quentes da infância, o rádio ligado... Súbito, o espelho resmunga: “Esqueceu de passar o protetor, sua besta.”

_____Ignoro-o. Há tempos me reconheço uma besta quadrada.

_____Como não posso tomar banho com aquele cara trepado ali, no andaime, abro a mala. Vou merendar, assim sujo de areia e sal, os pedaços de broa que trouxe de casa.

[.IMAGEM:_https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia.]


Mineiro da cidade de São Geraldo, graduado em Direito e História, Servidor Público, escritor de contos, poemas e crônicas. Publicou "Confissões", pela Editora Porto de Lenha, e "A vida segue" pela Caravana Editorial. Divulga seus escritos no blog "Reminiscências Literárias", Facebook, Instagram e no site "Recanto das Letras". 

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