É fevereiro e Baleia se foi

"A vida segue e com ela, tento retomar minha leitura. O livro, antes abandonado sobre a mesa, volta para minhas mãos." 

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____O livro é um calhamaço como dizem, possui cerca de trezentas folhas. Apesar disso, não reclamo, sua narrativa é envolvente e ligeira, não cansa. Esse ano estabeleci uma meta: ler mais e escrever menos. De página em página, vou me comovendo com a história revelada nos dramas das personagens — conflitos que parecem ser tão meus, quanto deles.

_____Num breve devaneio, oriundo de um avião que passeia no céu, o silêncio se desfaz. Minhas retinas mudam de foco e me concentro na aeronave cintilante, entregue ao firmamento. Com os sentimentos soltos, penso na ausência de Baleia, na sua morte repentina e no seu olhar de adeus.

_____Perder quem amamos é como cair das nuvens, se espatifar contra um chão, repleto de espinhos. Baleia se foi, deixou-me sua alegria e a cumplicidade que somente os cães sabem transmitir. Ela me amou durante dois anos. Amor singular, que atingiu meu coração feito um raio.

_____No fim de tarde, ao abrir o portão, Baleia corria ao meu encontro. Balançava feliz seu rabinho arrebitado, em forma de interrogação. Não poder mais senti-la entre meus dedos é como ter a segunda pele exposta ao intenso calor.

_____Baleia aqui já não vive. E penso que talvez, agora more em alguma espécie de paraíso, onde doguinhos como: Orelha, Pretinha, Manchinha, Abacate e tantos outros, vivem sob os cuidados de São Franciso de Assis. A dor e a maldade já não existem para eles. São habitantes de um reinado, em que a soberania canina prevalece, com seu último latido.

_____A vida segue e com ela, tento retomar minha leitura. O livro, antes abandonado sobre a mesa, volta para minhas mãos. Com meus olhos voltados para as páginas, revivo as questões das personagens. Será que eles também me leem?

_____Depois de alguns minutos, a leitura do dia está concluída, minhas pálpebras já sentem o peso das horas. Numa melancolia presente, acomodo o livro junto aos seus companheiros. Sonolenta, debruço-me sobre o parapeito da janela, assisto ao solitário avião ser engolido por uma nuvem.

_____Um vento morno afaga meus cabelos. Diante de mim, a cidade oferece suas luzes e uma tétrica sinfonia: longinquamente, o samba de algum bloco ecoa na esquina. Nem mesmo o cricrilar dos grilos e o ronco estrondoso dos motores dos carros, conseguem abafá-lo. É fevereiro, eu não poderia esquecer.

_____É tempo de carnaval...

_____Meu primeiro carnaval sem Baleia. 



 TEXTO: Mayanna Velame 
INSTAGRAM: @portugues_amoroso 
Mayanna Velame é escritora, poeta e professora nascida em Manaus. É autora dos livros: "Português Amoroso" (2020) e "Cactos e Tubarões" (2023). Foi finalista do Prêmio Selo Off Flip (2022), na categoria conto e vencedora do 6º FLIM (2023), promovido pela Academia Volta-redondense de Letras com o conto: "Professor Jeremias Bartolo". 
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