"É local absolutamente inóspito aos meus critérios humanos e limitados. Mas passarinho é quem sabe das coisas."
REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica )
.Text written in Portuguese - Select a language in TRANSLATE >.
_____Minha rua, como toda rua, tem postes. Em um deles, há um ninho de bem-te-vi. Justo no que tem o transformador de energia, com um indecifrável emaranhado de fios e cabos.
_____É ninho antigo. Todo ano, eles vêm botar seus ovinhos. Não são os mesmos. Talvez seja “imóvel” que passe de bem-te-vi pai para bem-te-vi filho, garantindo o teto (teto?) a várias gerações. Ou pode ser de locação, conforme anúncio classificado no Jornal dos Passarinhos, “Aluga-se ninho para temporada, completo e equipado, no melhor pedaço do Jardim Santa Cândida. Tratar com Sr. Bem-te-vi”.
_____E só vem bem-te-vi, mesmo. Nada de rolinha, maritaca ou sabiá-laranjeira como inquilinos, que esses têm outros lares. É ninho de uso exclusivo deles, como se houvesse um contrato invisível assinado pelas demais espécies. Nunca soube de outro passarinho ousando quebrar essa cláusula.
_____É local absolutamente inóspito aos meus critérios humanos e limitados. Mas passarinho é quem sabe das coisas. O pequeno vão entre poste e transformador formou um nicho seguro, à prova de gatos e outros predadores. E quentinho, condição básica para berçários. Um casalzinho deve ter aparecido por ali, achado a vizinhança interessante, com fartura de alimento e fácil acesso às matas da região. Resolveram se instalar. Foram juntando palhinhas, galhinhos, folhas, fios de cabelos que voam pelos ares (não que cabelos sejam pássaros), restos que ninguém quer mais. Desde então, o ninho virou tradição benteviana. Sabedoria passarinhesca não se questiona.
_____O pessoal da companhia de força e luz já esteve fazendo reparos no poste. Removeram o ninho, numa época em que estava vago. Mas bem-te-vi é bicho marrudo. Ao contrário do velho Adoniran, que viu sua saudosa maloca indo ao chão e, resignado, lamentou – “Nós arranja outro lugar” – , logo os bem-te-vis ergueram, no mesmíssimo ponto, um ninho novinho em folha. E a vida continuou. Desconfio que, se voltarem a tirar, eles voltam a construir. Vamos ver quem ganha. A natureza é mais poderosa que o transformador de ferro. Só ela é capaz de transformar ovo em passarinho. Não conheço quase nada mais importante que isso.
_____Quando sei que tem filhotes ali, por causa dos piados fininhos, costumo parar na calçada para ver o pai ou a mãe chegando para alimentá-los. É bem alto, mas, às vezes, da rua dá para ver as cabecinhas semicarecas dos filhotes, os biquinhos abertos à espera do almoço. Já de minha varanda eu os ouço, mas não consigo vê-los. Estou quase adquirindo um binóculo. Como Manoel de Barros, também fui aparelhada para gostar de passarinhos. Voyeur de passarinho é profissão?
_____Só sei que logo eles crescem, vão voar suas vidas e o ninho fica vazio. Mas só até a próxima estação.
IMAGEM DA PUBLICAÇÃO: https://www.progresso.com.br/cotidiano/meio-ambiente/
Silmara Franco é paulistana e publicitária. Nasceu em 1967 no bairro da Mooca, onde viveu por mais de três décadas. Hoje vive em Campinas/SP. Resistiu a transferir seu título de eleitor, apenas para poder visitar de vez em quando o colégio onde aprendeu a ler e escrever. Além de cronista, é autora de livros paradidáticos como “Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor” e “Você precisa de quê? A diferença entre consumo e consumismo” (finalista do Prêmio Jabuti 2017), ambos pela Editora Moderna. Manteve até 2021 o blog Fio da Meada. Redes sociais: Facebook e Instagram (fotografia: Helena Pazzetti).
_______________________________________________________________



Comentários
Postar um comentário