"Em meu ritual particular - além do pão, dou-me música e notícias e gatos - também um tipo de alimento."
REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica )
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_____O café da manhã deveria ser cláusula pétrea da Constituição Federal, artigo fundante na Declaração Universal dos Direitos Humanos, primeiro mandamento da Bíblia. Ser pessoal, intransferível, inalienável e inegociável. Não estou falando, porém, do direito básico à alimentação, nem de carboidratos, ingestão diária de calorias, essas paradas todas. E, sim, do café da manhã como instituição. O ritual sagrado de celebração de quem diz: “Mundo, acordei”.
_____De preferência, ser longo, prazeroso e dispensar o relógio. Para, entre um gole de café e uma mordida do pão francês com manteiga, viabilizar a observação essencial das maritacas que fazem ponto no telhado e do ipê rosa na rua, escandaloso que só. Para, também, deliberar se o almoço vai ser macarrão ou feijoada e para adquirir, em dois cliques, o livro novo do Cássio Zanatta.
_____Já fui praticante do café da manhã na modalidade vapt-vupt. Estudava do outro lado da cidade e tinha quatro minutos para fazer descer a banana amassada com aveia e Nescau que minha mãe preparava para mim, antes de enfiar a camiseta do colégio, catar o material e sair chispando, o 3104 passava na rua da Mooca às seis e treze e o motorista ignorava retardatários. Se quisesse me deleitar mais tempo na banana ou fazer um penteado no cabelão, eu que acordasse mais cedo – e aí seria pedir muito. Foi assim na faculdade, foi assim quando comecei a trabalhar no jornal. O café da manhã apressado de segunda a sexta, rasgando sem dó minha Constituição particular.
_____Um dos regalos de minha mãe era o café da manhã. Hora só dela. O cardápio franciscano disposto na mesa de fórmica, a toalhinha estampada, as louças duralex cor de âmbar (ou aquela beginha?). O rádio AM na cantoneira acima da pia, sintonizando um programa matinal qualquer, do Zé Bettio ou do Omar Cardoso. Ela com ela; assim começava seu dia. Na verdade, começara antes, ao abrir os olhos. As esperanças disputando espaço com as preocupações. Três filhos, a grana curta, os medos todos que as mães têm.
_____Não me lembro de ver minha mãe em seu café da manhã. Só me recordo de ela falando dele. Falar de uma coisa é a melhor maneira de fazê-la existir. Quantas vezes Dona Angelina chorou as pitangas, depois que ela e meu pai resolveram ser empreendedores e abriram uma venda... (Achava o fato de terem ‘comprado’ uma ‘venda’ uma excelente sutileza linguística). As longas jornadas, de segunda a segunda, iniciadas antes de o sol abrir os olhos, não a deixaram mais desfrutar o café da manhã em paz. Seu direito fundamental lhe fora subtraído. Talvez ela tivesse quatro minutos em casa para mandar alguma coisinha para o estômago, antes de pegar no batente. Ou quatro minutos já atrás do balcão, entre um freguês e outro. Em vez da mesa de fórmica, um canto improvisado entre prateleiras de latas de óleo, sacos de arroz e feijão, as garrafas de Cinzano e Tatuzinho, o baleiro cheio de Delicado e Jujuba. Em vez do rádio, o ruído do motor da geladeira, responsável pelos guaranás Caçulinha sempre fresquinhos. O direito (aquele, que deveria estar na Constituição) só lhe foi restabelecido uma década depois, quando ficou doente e não pode mais dar expediente na venda. Considerei isso uma grande sacanagem da vida.
_____Em meu ritual particular, além do pão, dou-me música e notícias e gatos – também um tipo de alimento. Envio, recebo, respondo mensagens, vou relembrando o sonho da noite passada. A manhã é do café e ninguém tasca. Estico-o até onde dá; às vezes, reconheço, mais do que deveria. Penso também que, se me demoro no ritual, o faço por minha mãe. Como se meu café da manhã longa-metragem fosse espécie de compensação para ela. Talvez, seja coisa do nosso DNA. Ou só preguiça, mesmo.
Silmara Franco é paulistana e publicitária. Nasceu em 1967 no bairro da Mooca, onde viveu por mais de três décadas. Hoje vive em Campinas/SP. Resistiu a transferir seu título de eleitor, apenas para poder visitar de vez em quando o colégio onde aprendeu a ler e escrever. Além de cronista, é autora de livros paradidáticos como “Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor” e “Você precisa de quê? A diferença entre consumo e consumismo” (finalista do Prêmio Jabuti 2017), ambos pela Editora Moderna. Manteve até 2021 o blog Fio da Meada. Redes sociais: Facebook e Instagram (fotografia: Helena Pazzetti).
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