1986

"No entanto, a melhor parte se concretizava na hora de assistir aos jogos do Brasil na casa de vovó. A cada partida, o coração era testado, a cada vitória; alívio e euforia." 

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____Gosto muito desse clima de Copa do Mundo. Mesmo que não haja nesta cronista, uma extrema alegria como a de outros tempos. Mas aqui neste texto, de cunho notoriamente nostálgico e não futebolístico, irei relatar o que me aconteceu na década de oitenta...

_____Em 1986, viajei com minha mãe e meu irmão para o Rio de Janeiro. A cidade maravilhosa se rendia ao inverno rigoroso. Para mim, que sou do Norte do país — era diferente sentir aquele vento gélido roçar as minhas bochechas e afagar meus cabelos.

_____Lembro-me de correr feliz pelas calçadas da Praça Saens Peña. Sorrindo, espantava os pombinhos e me deliciava com pipocas e amendoins torrados. Melhor que isso era poder contemplar o pôr do sol na Praia Vermelha ou, quando não, passear de braços dados com mamãe pelas ruas do bairro da Tijuca. Meus miúdos olhos observavam as bandeirolas, com as cores da bandeira nacional sobressaindo-se no céu cinzento da capital fluminense. O Rio de Janeiro era muito mais que lindo, era um quadro vivo e colorido na visão de uma criança.

_____No entanto, a melhor parte se concretizava na hora de assistir aos jogos do Brasil na casa de vovó. A cada partida, o coração era testado, a cada vitória; alívio e euforia. Vovó rezava, apegava-se a todos os santos, ao Papa e a Deus. Orava o Pai – Nosso, a Ave- Maria e tudo mais que podia. Eu apenas a esquadrinhava, não entendia de futebol, mas conseguia absorver aquela atmosfera, que somente uma Copa do Mundo pode causar em nossos corações.

_____Para comemorar, vovó satisfazia nossos desejos com guloseimas intermináveis. Milho cozido sempre foi a minha pedida. Momentos únicos que a memória guarda, recordações que ecoam em nossa mente como um grito de gol.

_____Em 1986, o Brasil não ganhou a Copa do Mundo: perdemos nos pênaltis para a França. Tristeza geral para todos! Inclusive para vovó, que compartilhou suas lágrimas com São Sebastião. Quanto a mim, restavam-me a dor e a melancolia da volta para Manaus.

_____Não haveria mais Corcovado, Cristo Redentor nem vovó, com suas rezas e promessas. Entretanto, restaram estas lembranças que nunca se apagam, são imortalizadas, como grandes finais dignas de uma Copa do Mundo.

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IMAGEM DA PUBLICAÇÃO: www.museudapelada.com/  

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 TEXTO: Mayanna Velame 
INSTAGRAM: @portugues_amoroso 
Mayanna Velame é escritora, poeta e professora nascida em Manaus. É autora dos livros: "Português Amoroso" (2020) e "Cactos e Tubarões" (2023). Foi finalista do Prêmio Selo Off Flip (2022), na categoria conto e vencedora do 6º FLIM (2023), promovido pela Academia Volta-redondense de Letras com o conto: "Professor Jeremias Bartolo". 
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