Das feiras, o melhor é o coffee break

"Por ora, assim como eu, Eustácio tenta vender seus livrinhos em feiras e festas literárias – como a de hoje." 


REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica )

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_____— Indecente! Ah, vai se ver comigo. Deixa só. Vou lhe aprontar uma que vai sair até de banda.

_____Essas palavras, gritadas por uma senhorinha quando eu saía do banheiro, me fizeram instintivamente levar a mão ao fecho.

_____Ufa! Fechado.

_____Agarrada à alça da bolsa, ela vai manquitolando pelo corredor. 

_____Sentado num canto, Eustácio me acena.

_____Conheci-o recentemente e, pelo que percebi, acredita ser porta-voz das musas e “em breve alçará aos píncaros da glória literária para gozar da imortalidade ao lado de Shakespeare, Camões e Whitman”.

_____Por ora, assim como eu, Eustácio tenta vender seus livrinhos em feiras e festas literárias — como a de hoje.  

_____Puxo uma cadeira e pergunto o que aconteceu. 

_____Limpando os dedos na toalha, explica:

_____— Aquela senhora é minha confreira na academia de letras. E encontra-se indignada com nosso venerando presidente... Ô, mocinha, mais refrigerante para mim, por obséquio.

_____A mocinha, sem olhar pro meu lado, enche o copo de Eustácio. 

_____— Ela foi designada para compor a mesa sobre literatura na Zona da Mata. Você a viu sentada lá... Ô, menino, outra fatia desse bolo aí, por gentileza.

_____O menino, ao contrário da mocinha, me oferece o bolo de cenoura.

_____— Se o amigo não aceita, comerei por nós dois.

_____E, dizendo isso, Eustácio avança sobre três pedaços.

_____Rindo da aritmética eustaciana, o menino se afasta.  

_____— Ah, um desses lá em casa. Eu colheria cenoura todos os dias...

_____Como não estou a fim de embarcar em temas, digamos, agrícolas, peço ao guloso que volte à senhorinha.

_____— Ela preparou um texto. Aliás, meu camaradinha, aquilo não é um texto. É praticamente um ensaio. Leu para os acadêmicos na última reunião. Dois parágrafos a mais e eu saltava pela janela. Que maçada... Ei, jovem, qual sua graça?

_____O jovem, que leva pasteizinhos e coxinhas, franze a testa.

_____— Seu nome, filho. Qual seu nome?

_____Encarando a língua de Eustácio, que passeia pelo lábio lambuzado de chocolate, o rapazinho diz se chamar Aníbal.

_____— Barca?

_____Agora somos dois a franzir a testa.

_____— Homessa! Os senhores são mesmo despidos de cultura, hein. Aníbal, meu jovial e quiçá futuro general destas plagas incultas, não me arranjaria mais daquelas apetecíveis barquetes, não?

_____Aníbal promete que “vai ver se tem mais na cozinha” e, antes de se afastar, Eustácio enche a mão de salgadinhos. 

_____— Esse, certamente, deixaria não só os romanos ajoelhados. 

_____Corto o assunto com um pigarro.

_____— A dedicada confreira pesquisou sobre os escritores aqui da região. De Murilo Mendes a Rosário Fusco, passando por Rubem Fonseca e Luiz Ruffato, levantou biografia, bibliografia, casos pitorescos... Enfim, essas coisas que considera agradáveis ao distinto público.

_____Questionei por que, então, ela não falou sobre isso. Aliás, enquanto esteve sentada com os outros membros, se limitou a gaguejar e murmurar nada com coisa nenhuma.

_____— Eis o busílis, meu camaradinha. A mesa não era para dissertar sobre isso. Ou melhor, cada um dos excelsos acadêmicos explanaria acerca da produção atual de suas respectivas academias e de seus membros. Projetos, lançamentos, eventos e quejandas.

_____Espantado, pergunto se a dona não sabia, ou não se inteirara, do tema com antecedência.

_____— Ela, como diz o vulgo, entrou de gaiato no navio. E nosso presidente, ciente do quanto a veneranda senhora gosta de aparecer, empurrou-lhe essa mesa. Enfim, pediu que preparasse uma coisa e, na hora agá, era outra. 

_____A senhorinha, ainda cuspindo marimbondos, para diante de nós.

_____— Os senhores viram meu presidente por aí? Tenho umas continhas a ajustar com aquele abusado.

_____Negamos com a cabeça.

_____E, enquanto ela se afasta, brigando com a alça da bolsa, Eustácio arreganha as canjicas: Aníbal, com ar de garoto maroto, vem trazendo um monte de barquetes num pratinho. 


IMAGEM DA PUBLICAÇÃO: criada pelo ChatGPT (enviada pelo autor) 

 

Mineiro da cidade de São Geraldo, graduado em Direito e História, Servidor Público, escritor de contos, poemas e crônicas. Publicou "Confissões", pela Editora Porto de Lenha, e "A vida segue" pela Caravana Editorial. Divulga seus escritos no blog "Reminiscências Literárias", Facebook, Instagram e no site "Recanto das Letras". 

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O articulista atua como Colaborador deste Blog e o texto acima expressa somente o ponto de vista do autor, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

                                        

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