A boca desdentada

"Para macular a brancura desdenhosa, digito um punhado de reminiscências - apelar à memória costuma ser estratagema eficaz." 

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____A poucos centímetros de meus olhos cansados, a tela em branco. Branquíssima, como a neve que só conheço pelos filmes hollywoodianos.

_____Branca, branca, branca.

_____Como as coxas que espio, entre a persiana, trocando-se diante do espelho. 

_____A tela me encara.

_____Amós Oz — na introdução de E a história começa — provoca: “quem não passou pela medonha experiência de sentar-se diante de uma página em branco, com sua boca sem dentes rindo com escárnio para você”? 

_____A tela do meu inseparável — e nem sempre fiel — notebook endossa as palavras do escritor: “Vá em frente, quero ver você encostar o dedo em mim.”

_____Para macular a brancura desdenhosa, digito um punhado de reminiscências — apelar à memória costuma ser estratagema eficaz.

_____Li pouca poesia na meninice. Talvez por falta de biblioteca na escola ou na cidade; talvez porque diziam ser coisa de moça e de fresco. Há muitos “talvez” no caminho de um garoto.

_____Em casa, poucos livros: uma edição do Orfeu, de Jorge de Lima; alguns volumes de J. G. de Araújo Jorge com versos românticos que não me interessavam de forma alguma. Porém, um poeminha seu — sobre cigarras — me entusiasmou a tal ponto que foi parar no meu diário.

_____Ah, meu famigerado diário: a ti já dediquei diversas crônicas. Nossa relação, porém, não era cordial. Muitas vezes o lancei embaixo da mesa, atrás do sofá, pela janela e, por pouco, não o fiz descer pela privada. Como desejei ter mais alguns centímetros para alcançar o pega-moscas sobre o fogão e deixá-lo lá, grudado e ensebado, fazendo companhia a mosquitos e varejeiras.

_____Na escola, exigiam-me vinte e poucas linhas. “Em letra de gente, e não com essas bostinhas de barata que você escreve”, ironizava a professora. Com ódio e sofrimento, eu as redigia ao entardecer.

_____A noite caía ao som da ladainha da capela, que parecia descer o morro só para me azucrinar. Eu amaldiçoava verbos, pronomes e substantivos. Ti Mário anunciava, pelo alto-falante, novenas e reuniões paroquiais — eu recortava quadrinhos de revistas e trechos de jornal para encher a página. Era um custo, mas conseguia. Tinha que conseguir: valia pontos, e tirar nota em Português não era bolinho.

_____Talvez, se houvesse mais livros de poesia em casa, fosse menos penoso cumprir a obrigação escolar. 

_____Faltava-me poesia; sobravam-me animais.

_____Tive a felicidade de morar numa casa com quintal — e de ter a companhia de muitos bichos: galinhas, codornas, periquitos, coelhos, cachorros, canários. Até seriema viveu por lá — ao menos o tempo necessário para se recuperar de um ferimento na perna.

_____Afora esses que eram, digamos, “meus”, havia os que circulavam livremente pela área da casa: a vira-lata que alimentávamos na porta e modorrava no degrau da escada; os pardais catando painço e alpiste no terreiro; os anus empoleirados nos mourões a crocitar más-notícias; a corujinha que, todas as noites, nos encarava ressabiada da cumeeira.

_____Os animais nos ensinam muito sobre a anima mundi.

_____Hoje, sem quintal e sem passarinho para alimentar, observo da sacada: pela manhã, tucanos brincam na árvore, enquanto pombos inconvenientes arrulham na cobertura do prédio; à tarde, maritacas vêm desafinar sua algazarra e, penduradas nas telhas, parecem gritar: “Bicho mais esquisito esse: vive sentado com um livro na mão, nos olhando feito besta”.

_____De uns tempos para cá, têm aparecido urubus feiíssimos que rodopiam sobre os telhados, pousam nos muros, batem asas e se vão.

_____Noutro dia, digitava minhas bobagens crônicas quando, súbito, um filhotinho de bem-te-vi invadiu o quarto. Bateu o bico na estante e, espavorido, refugiou-se na prateleira mais alta, entre a coleção do Lobato e os romances naturalistas.  

_____Nos apartamentos vizinhos, cães fungam, rosnam e latem quando passo pela escada. No 203, o gato — sempre refestelado na janela — sonha com o dia em que conseguirá escapar para o mundo. Ó, inocente bichano, se soubesse como é a vida... colocaria seus bigodes de molho e nunca mais desejaria botar suas patas branquinhas aqui fora, nem por um segundo.

_____Paro de digitar.

_____A boca desdentada — agora cheia de palavras — não desdenha mais.

   

    

Mineiro da cidade de São Geraldo, graduado em Direito e História, Servidor Público, escritor de contos, poemas e crônicas. Publicou "Confissões", pela Editora Porto de Lenha, e "A vida segue" pela Caravana Editorial. Divulga seus escritos no blog "Reminiscências Literárias", Facebook, Instagram e no site "Recanto das Letras". 

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