A mão do poeta

"A poesia agora era o seu mundo e ele ganhava uma nova dimensão, um novo significado. Uma nova leitura se rabiscava nos devaneios e nas utopias mais sublimes." 

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____Ela tinha uns treze anos de idade e o seu corpo era rechonchudo, mal cabia ele dentro do uniforme escolar. A face toda estrelada de espinhas, cintilava sua timidez e insegurança diante do mundo.

_____Na escola, seus amigos eram poucos, mas apesar de tudo, gostava de estar lá. Pois podia muito bem encontrar seus livros e com eles, a poesia. Durante as aulas de Língua Portuguesa, ela se encantava com Drummond, Gullar, Meireles e um poeta da sua região, chamado de Thiago de Mello. Leu então, Os Estatutos do Homem. E foi assim, que percebeu, o quanto a poesia podia converter as manhãs cinzentas de terças-feiras, em dias ensolarados de domingos.

_____A professora instigava os alunos, incentivava na produção de poemas, deixava à luz, a criação poética. Com isso veio os saraus, os festivais literários do colégio, conheceu Thiago de Mello, durante um evento e ele apertou firmemente sua mão. A menina rechonchuda ganhava prêmios, apresentava seus poemas e entre eles, destacou-se um, intitulado: O fim de tudo.

_____Não sabia ela, que ali estava o início de tudo, descobriu o quanto a literatura era saber dialogar em silêncio. E ela aos poucos foi dialogando. De verso em verso, a vida reluzia novas cores. O pôr do sol não era apenas mais um fenômeno natural, era uma pupila em brasa, esquecida por algum gigante no horizonte. A chuva e seu chiado sobre as telhas das casas, revelava as lágrimas dos anjos e o solo úmido demonstrava a transpiração da cidade, fincada na floresta.

_____A poesia agora era o seu mundo e ele ganhava uma nova dimensão, um novo significado. Uma nova leitura se rabiscava nos devaneios e nas utopias mais sublimes. Viver apenas não bastava, era preciso transformar os sentimentos em linguagem e é por causa dela, que os seres humanos conseguem se unir. É na linguagem que nos reconhecemos. E poesia é linguagem. É demonstração maior do sentir, na projeção daquilo que o abstrato concretiza dentro de cada um...

_____Ela tem um pouco mais de quarenta anos, o corpo continua rechonchudo. O uniforme escolar ficou no passado, como a lembrança de um tempo bom. A face hoje é lisa, mas com algumas cicatrizes deixadas pelas espinhas da adolescência. A timidez ainda impera, embora, não tão eficiente como outrora. Thiago de Mello que lhe ofereceu uma das mãos, faz poesia em outra morada...

_____Morada em que residem os sonhos de quem quer ser poeta... 


IMAGEM: Thiago de Mello - FONTE: www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/01/

 

TEXTO: Mayanna Velame 



 TEXTO: Mayanna Velame 
INSTAGRAM: @portugues_amoroso 
Mayanna Velame é escritora, poeta e professora nascida em Manaus. É autora dos livros: "Português Amoroso" (2020) e "Cactos e Tubarões" (2023). Foi finalista do Prêmio Selo Off Flip (2022), na categoria conto e vencedora do 6º FLIM (2023), promovido pela Academia Volta-redondense de Letras com o conto: "Professor Jeremias Bartolo". 
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