"De tudo isso me vêm à mente muitas lembranças; algumas delas ainda nítidas, outras num cenário translúcido. São pedaços de memória, feitos retalhos de tempo."
REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica )
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_____Estamos em março, mês em que se homenageou as mulheres no dia 8, em razão do “Dia Internacional da Mulher”. Apesar de ter muito a ser dito sobre essa data, e por aquilo que as mulheres representam no mundo, peço licença ao leitor para falar em particular sobre uma mulher em especial. Minha mãe, que há três semanas (no último dia 3) partiu para a eternidade, aos 92 anos.
_____Seu nome era Davina. Segundo seus familiares, originou-se em razão dela ter nascido no “Dia de São Davi”. Muito embora minha pesquisa na internet indique como sendo outro o santo comemorado no dia 19 de agosto, naquela época era a informação que se tinha sobre a data.
_____O fato de tratar-se de um nome incomum trouxe certo desconforto, em razão de ela ter que normalmente repeti-lo quando solicitado. Num primeiro momento, quase sempre era entendido como sendo “Divina” ou mesmo “Malvina”, ou até outro nome semelhante. Desse modo, para corrigir a outra pessoa, ela tinha que pronunciar pela segunda vez, mais pausadamente e com certa ênfase.
_____Dona Davina nasceu em Piracicaba, cidade interior do estado de São Paulo. Descendente de italianos (famílias Verdicchio e Rossini), foi casada com o Sr. Armando (falecido em 2023), também de famílias de origem italiana (Paschoalini e Parisotto). Tiveram 7 filhos, sendo dois deles já falecidos. Além dos filhos, 12 netos (uma neta falecida) e três bisnetos.
_____Tanto ela como meu pai nasceram na zona rural. A vida sempre foi muito difícil, uma vez que o cultivo de cana-de-açúcar era uma tarefa que exigia muito sacrifício. Além de o trabalho pesado tomar o dia todo, o acesso à escola era limitado ao quarto ano primário. A vida era restrita à lavoura, sem outra perspectiva futura.
_____Quando tinham dois filhos mudaram-se para cidade, literalmente sem um único centavo no bolso, com objetivo de dar às crianças melhores condições de vida. Enquanto meu pai era operário numa indústria metalúrgica, minha mãe cuidava dos serviços da casa e dos filhos que vieram depois. Uma atividade e tanto!
_____Recordo das residências onde moramos, cada qual com sua característica e significado para a época. Em todas elas ficou a atenção dispensada aos filhos e em cada cozinha o mesmo cheiro de tempero da comida ‘da mamma’, com sabor de ‘manja che te fa bene’.
_____Mais tarde, com seis filhos, além das atribuições domésticas, durante certo tempo ela chegou a fazer bordado em peças de cama e mesa para uma empresa de tecidos, a fim de complementar a renda. Acredito que desde então começou a vir à tona suas habilidades, que derivou de alguns ensinamentos adquiridos de minha avó materna.
_____Também herdou a facilidade em lidar com a máquina de costura, ocupando-se em confeccionar roupas para os filhos, além de pequenos remendos cerzidos com capricho, executados nas peças que mereciam tal empreitada.
_____De tudo isso me vêm à mente muitas lembranças; algumas delas ainda nítidas, outras num cenário translúcido. São pedaços de memória, feito retalhos de tempo. E é justamente aqui que eu gostaria de me debruçar de maneira especial; nos retalhos.
_____Quando chegava o inverno, os pijamas de flanela costurados por ela nos protegiam das noites frias. Também havia cobertores para nos aquecer, mas nada se comparava ao aconchego das colchas de retalhos que ela fazia. E até pouco tempo ainda continuava a fazer!
_____Dona Davina durante décadas praticou sua arte e a desenvolver lindas peças. Munida do material a ser descartado por pequenas confecções da cidade e movida pela inspiração, ela concebia em sua mente a colcha que queria criar, recortando milimetricamente os retalhos no devido tamanho e formato. Para ter uma ideia da complexidade, uma das colchas mostradas na imagem (primeira à direita) contém 1.200 retalhos. Em seguida, montava os quadros em simetria, juntando-os lado a lado, até adquirir o aspecto imaginado. Costurava todos eles e, para finalizar, colocava o forro como última etapa do processo.
_____Acredito que ficaria difícil de saber com exatidão quantas unidades ela já fez, mas foram muitas mesmo, tanto para cama de solteiro como de casal. Eu mesmo tenho três delas. Isso sem contar tapetes e almofadas, também feitos com retalhos de tecidos. Nunca vendeu nenhuma peça; sempre as fez de bom coração para serem oferecidas como presente para pessoas de seu convívio pessoal. Há cerda de três anos, costurou uma colcha para uma conhecida que morava sozinha e enfrentava algumas dificuldades. Outra, para uma pessoa cadeirante que ela conheceu. Afinal, quando chega o inverno é importante se proteger dessa estação.
_____É interessante pontuar que todos os filhos têm um particular dom artístico, que certamente foi herdado. A Ana Maria tem habilidade com bordados e pinta lindos quadros; o Valter (já falecido) era uma talentoso desenhista; o Zé Roberto é um músico de mão cheia, que canta, compõe e “arranha” vários instrumentos; o Luiz toca viola, violão e também canta, além de dedicar-se à cervejas artesanais; o Alex toca violão, compõe e é escritor, com dois livros publicados e outros a caminho. Isso sem falar dos netos...
_____No meu caso, eu aprendi a alinhavar palavras, fazendo dos pedaços de azul um pouco de céu e mar e das frações amareladas eu descrevo o por do sol ou o brilho da lua. Das fatias marrons eu faço delas terra e das verdes eu as transformo em relva. Ainda, de fragmentos das demais cores imaginadas eu faço brotar um jardim repleto de pétalas e flores, de todos os tons.
_____Termino o texto deixando aqui minha infinita gratidão pelos retalhos que ela manuseou na vida, especialmente aqueles que têm a forma de carinho e dedicação, todos eles sem tamanho, que foram costurados com cuidado materno, ponto por ponto, com as linhas mescladas do tempo.
_____O nome de minha mãe era Davina... Mas se alguém se referir a ela como sendo “Divina”, penso que não estaria de todo equivocado, não é mesmo?!
Convido o leitor a ver as imagens de algumas peças que ela fez (tem muito mais), acessando o link abaixo:
BLOG PIRAFRASEANDO:
LINK: https://pirafraseando.blogspot.com/2026/03/meu-texto_24.html
Paulo Cesar Paschoalini nasceu em 20 de março de 1960 em Piracicaba-SP. É graduado em Licenciatura em Filosofia, escritor de poesias e contos, com premiações em Concursos nacionais e internacionais, tendo textos de ambos os gêneros publicados no exterior. Seu livro "Arcos e Frestas" foi selecionado no "3º Concurso Blocos de Poesias" e publicado em 2003. Publicou recentemente o livro de poesias "Mar adento, mundo afora", pelo "Clube de Autores", no ano de 2024. Foi premiado na categoria crônicas em eventos literários e alguns de seus textos foram publicadas no Jornal de Piracicaba em 2001, 2002 e 2005. É compositor (letrista) de vinte músicas de diversos estilos, em parceria. Está trabalhando no original de seu livro de contos, que contém 20 textos desse gênero e aguarda patrocínio/parceria para lançamento.



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