Nem Todas as Rosas Murcham

"Hoje, ao recordar esse momento dói-me o peito, não só de saudades, mas por ver ali a menina, a eterna menina que vive em nós, que vivia nela e tinha estado adormecida tantos anos." 

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____Nem consigo lembrar-me do que me fez recordar-te.

_____Porque entrei numa espiral de memórias e, agora, ao tentar passar para o papel, perdi o fio à meada.

_____Avó...

_____Já anteriormente escrevi sobre ti, noutras crónicas.

_____E hoje dei por mim, novamente, a recordar a nossa história, os nossos momentos.

_____Já estavas aposentada, e nessa altura, ias ficando temporadas nas casas de teus filhos. E quando vinhas à nossa, em Setúbal, era maravilhoso.

_____Eu teria talvez uns 13, 14 anos, e tínhamos aberto há pouco tempo a nossa loja, a nossa folga era somente à quinta-feira. E nesse dia havia mercado, e adorávamos ir as três, eu, tu e minha mãe, enfeirar.

_____Tomávamos o pequeno almoço naquela pastelaria que lá havia, sempre a abarrotar, mas já era uma rotina deliciosa, depois, começávamos o desfile por todas as bancadas, sapatos, malas, e roupa, muita roupa. Alguma pendurada em cabides, em exposição, outra, ao molho, despejada em bancadas de madeira improvisadas. E a revolvíamos, como se pudéssemos encontrar tesouros escondidos, a preços surreais. Lembro uma vez que comprámos sapatos iguais, noutra, malas, que usávamos vaidosas, gémeas, A minha, guardei durante anos, mesmo depois de partires, porque era a “nossa mala” e olhá-la, ali, exposta no roupeiro, me levava de volta a ti e a esse tempo.

_____Outra das nossas tradições sempre que estávamos juntas, era fazer o totoloto, a meias.

_____Sabes avó! já não jogo, ou muito raramente, e apenas quando minha mãe me incentiva. Talvez, inconscientemente, sinta que era algo só nosso, apenas nosso.

_____Alguns anos mais tarde, já estavas permanentemente em cada de uma filha, e achavas imensa piada às roupas que por vezes eu usava. E, nessa altura usavam-se uns tops de malha de alças, com um casaquinho curtinho igual, por cima da mesma cor, eu tinha um castanho, completamente juvenil.

_____Fazias anos a 14 de dezembro, e nesse ano, quando cheguei à tua festa de aniversário, vi-te com um conjunto desses, igual ao meu, mas azul. E sorri, porque éramos assim, éramos nós, eram “as nossas coisas”.

_____A tia contou-me depois, que tinhas insistido em comprar para usar nos teus anos um daqueles conjuntos, igual ao meu. Ela dizia, «mas mãe, isto não é para a sua idade», mas a minha avó era de ideias fixas, comprou e usou orgulhosamente. E sabem que mais? Estava linda, todos adoraram, até quis pintar as unhas da mesma cor.

_____Hoje, ao recordar este momento dói-me o peito, não só de saudades, mas por ver ali a menina, a eterna menina que vive em nós, que vivia nela e tinha estado adormecida tantos anos.

_____Por entender que aquela mulher, não pôde viver a sua feminilidade perante as circunstâncias que a vida lhe trouxe. Teve de ser forte, quase “masculina”, rija e impenetrável. E agora, agora insistia em vivê-la, não se resignando à sua idade ou condição. 

_____Avó...

_____Alguns anos mais tarde, a alzheimer e o Parkinson tomaram conta de ti, e deixaste de nos reconhecer. Vinhas por vezes à loja e eu fazia-te o pão de ló que adoravas, mas já o comias por instinto, depenicavas pequenos pedacinhos, alheada do mundo.

_____Mas num desses dias, eu estava sentada à tua frente e tu, com um pedacinho de bolo na mão, levantaste a cabeça, olhaste para mim e sorriste... e eu, chorei.

_____Porque sei que de algum modo, sabias quem eu era. Sentiste o amor e a energia que nos unia, e tenho esse momento registado religiosamente no meu coração.

_____E agora, no fim desta crónica, lembrei-me porque me recordei de ti e a escrevi. Tenho guardadas as tuas boinas de lã, e ao remexer numa gaveta, as vi e pus uma na cabeça, e amei ver-me com ela. Sorri, e nesse momento vi-te no espelho, eras tu avó.

_____Porque todos os anos te oferecia uma boina de lã, e bem colorida. Porque sabia que gostarias e ficavas linda, embora já nem o percebesses.

_____Avó...

_____Depois de partires, a tia deu-me as tuas boinas, e sabes? Vou passar a usá-las...

_____Porque sou orgulhosamente uma parte de ti, e tu avó, continuarás viva em mim, e nas minhas palavras.

 

(A ti, avó Rosa) 

 

 TEXTO: Ana Acto 

FACEBOOK: http://www.facebook.com/anaacto 

Ana Acto, nasceu a 5 de abril de 1979 em Tomar, Portugal. Abriu em 2018 nas redes sociais uma página de autora com o seu nome onde partilha a sua escrita em poesia, prosa poética e reflexões. Escreve-nos sobre a vida, e sobre o amor em todas as suas vertentes, romantismo, perda, esperança e sensualidade. Participante ativa em saraus e tertúlias poéticas e coautora em mais de vinte obras coletivas. Lançou em 2020 o seu primeiro livro de poesia, intitulado “NUA”. Para além do gosto pelas letras, tem diversas formações em terapias holísticas e alternativas. 

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