"Junto com o pôster, despenca um monte de revistinhas. Pego uma e, instantaneamente, sou teletransportado no espaço-tempo."
REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica )
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_____À sacada, algumas crônicas me acalentam. A brisa, atravessando a tela de poliéster, traz as quatro batidas do carrilhão da igreja. O domingo voa. Com ele, um papagaio de rabiola espandongada. Acompanho seu movimento desengonçado, a linha subindo e subindo...
_____Subitamente, um “ô de casa” me chama à terra.
_____Deixo a leitura em suspenso. Vou atender.
_____Encostado no corrimão da escada, o vizinho. Pergunta se, por acaso, não tenho uma bolsa para quebrar seu galho: pretende pegar a estrada na madrugada; a ex-mulher levou todas as malas na separação, etecetera e tal.
_____Peço que retorne daqui a pouco. Mãos nos bolsos da bermuda floral, ele desce as escadas assoviando Garçom. Além de inconveniente, brega.
_____Vou remexer no roupeiro, que tem de tudo, menos roupa: escrituras, cadernos com textos inacabados, DVDs, suvenires, contracheques antigos, carnês de IPTU, recibos, faturas de cartão, discos do Roberto Carlos, exemplares encalhados do meu último livro. E malas — muitas malas — a maioria danificada pelas companhias aéreas desta pátria gentil. Feito matrioskas, guardam bolsas e mochilas — companheiras de tantos caminhos e tantas jornadas.
_____Retiro a Village preta, única ainda a preservar certa dignidade.
_____Um pôster emoldurado tomba. Nem lembrava que estava ali. Sou eu, de camiseta verde e branca, Clarabela estampada no peito. Engraçado: dos personagens disneyanos, a Clarabela era a que menos me chamava atenção.
_____Junto com o pôster, despenca um monte de revistinhas. Pego uma e, instantaneamente, sou teletransportado no espaço-tempo.
_____Já não estou no quarto cercado de bagagens, burocracias, bugigangas. Estou diante de caixas e caixotes onde gibis — muitos, incríveis gibis — esperam por meninos da minha idade.
_____Miguelito bate papo com meu pai e, sem desgrudar os olhos da navalha, barbeia um homem com cara de coruja seca. Sobre o tamborete, já separei duas Luluzinhas, três Pato Donald, As Aventuras dos Trapalhões, uns almanaques.
_____Um carro barulhento corta a avenida. O sino da Santa Rita conclama — talvez à missa, talvez à novena. Não me importo. Importa encontrar outras revistinhas: o pai prometeu que eu podia escolher uma porção.
_____O cara de coruja seca reclama do governo e garante que, no próximo ano, será pior ainda. Miguelito espalha mais espuma no seu rosto; ele se cala.
_____Ah, como é bom garimpar em paz.
_____O pai, no entanto, me apressa: “Sua vó deve estar com o almoço pronto”.
_____Eba — encontrei a que eu queria! Meu berro, por um instante, silencia o sino.
_____Ele pede a Miguelito para ver quanto deu tudo. Desfazendo a pilha, mostro meus achados. A navalha, suspensa no ar, aguarda. O talão de cheques e a caneta saltam da pochete; números e palavras quase ilegíveis se espalham no papel.
_____Peço para levar também O Pequeno Ninja.
_____O “não” paterno enche a barbearia-sebo — ou sebo-barbearia, sei lá como se chama este lugar.
_____O cheque corre de uma à outra mão. Emburrado, atravesso a avenida, o “outro dia você leva essa daí” martelando meus ouvidos.
_____Entro no Chevette com a certeza de que aquela revistinha não estará mais ali quando eu voltar — se voltar — nesse tal outro dia.
_____De repente, um barulho.
_____A mala cai no chão.
_____Novamente no quarto, A Turma do Arrepio entre as mãos, o coração pulsa nostálgico. Uma edição maltratada pelo tempo e pelos meus dedos, que releram seus quadrinhos tantas vezes. Esta também veio do sebo-barbearia — ou barbearia-sebo. Naqueles tempos inflacionários, nem sempre dava para comprar as novidades na banca; a salvação era o Miguelito.
_____No silêncio dominical, tento lembrar a última vez que estive lá. Tento, mas não consigo. Sei apenas que, após a morte da vó, nossas idas a Além Paraíba tornaram-se espaçadas, protocolares: outros enterros, o casamento da prima, visitas a parentes adoentados.
_____Pensando bem, aquele lugar não existe mais — o pai acumula muitos outonos, eu já não sou nenhum jovenzinho — assim como não existem certos parentes, nem o velho Chevette.
_____Empilho novamente as revistinhas, ajeito o pôster.
_____Por que diabos eu vestia uma camiseta com a metida da Clarabela?
_____Bem, isso não vem ao caso.
_____Preciso encontrar uma bolsa para o vizinho, voltar à sacada e desfrutar, em paz, o resto do domingo.
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IMAGEM DA PUBLICAÇÃO: www.mercadolivre.com.br/
Mineiro da cidade de São Geraldo, graduado em Direito e História, Servidor Público, escritor de contos, poemas e crônicas. Publicou "Confissões", pela Editora Porto de Lenha, e "A vida segue" pela Caravana Editorial. Divulga seus escritos no blog "Reminiscências Literárias", Facebook, Instagram e no site "Recanto das Letras".
O articulista atua como Colaborador deste Blog e o texto acima expressa somente o ponto de vista do autor, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.



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