À direita

“Despacho mais livros. Aos poucos, meu A vida segue ganha o país: semana passada, foram três para Belo Horizonte, dois para o Rio; hoje, seguem para Crato e São Luís.”

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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        Com cuidado, desço a Raul Soares: o toró da madrugada deixou as calçadas mais escorregadias. Nessas horas, pergunto por que os proprietários de imóveis não arrumam suas calçadas. Outro dia, uma dona caiu feito jaca madura — gritava “acuda, acuda”, pernas e braços remexendo para o alto, feito besouro. Antes que eu atravessasse a rua, um barbudo de boné a socorreu. Não deve ter se machucado: seguiu conversando e rindo com seu salvador.

Eu mesmo, se não sou de circo, dia desses me espatifava. A sorte é que, quando senti o tênis deslizar, me agarrei ao muro de uma certa doutora. É o ponto mais crítico, a calçada dessa doutora.

        Na praça, folhas e galhos tombaram. Hoje, os velhinhos não jogarão carteado. A fila na porta do banco, contudo, vai se formando... É incrível como brasileiro gosta de fila: o atendimento começa às onze; o povo chega às sete e pouca. Falta do que fazer? Tenho vontade de perguntar às cabeças brancas ali enfileiradas. Porém, passo batido: melhor seguir meu rumo, afinal, tenho mais o que fazer.

        No hortifruti, tudo pela hora da morte: um pezinho de brócolis, onze reais; uma couve-flor, dessas que não enchem o prato, doze; o quilo da cenoura a dez e noventa e nove... Onde vamos parar? Pergunto ao bonequinho do semáforo. O antipático não responde.

Um doguinho para ao meu lado, me lança um sorriso sincero. Felizmente, nem todos são antipáticos neste burgo esquecido pelos deuses. Carros, motos, vans, ônibus expelem fumaça e barulho. Ele continua abanando o rabo, feliz em esperar comigo. Lembro o vídeo que meu sobrinho assiste no celular: “É um doguito tão bonitito, quando te vê ele abana o rabito”. Essas músicas grudam na cabeça feito chiclete barato.

        O boneco verde, num mutismo tão deselegante quanto o do companheiro de labuta, assume seu posto.

Sigo para o correio; meu amiguinho vai para a ponte. Ainda bem que não me seguiu: com este guarda-chuva enorme e um cachorro a tiracolo, eu seria a réplica do Jeca Tatu. Para ficar idêntico, só faltava um matinho no canto da boca.

        Despacho mais livros. Aos poucos, meu A vida segue ganha o país: semana passada, foram três para Belo Horizonte, dois para o Rio; hoje, seguem para o Crato e São Luís.

A atendente executa os procedimentos de praxe: etiqueta, confere remetente e destinatário, digita, cola os selos, carimba a data.

No guichê ao lado, um funcionário comenta sobre um tal Asnésio:

— Ele é da extrema-direita, cê sabe. Apesar disso, é muito melhor de lidar que a chefia anterior.

        Ah, tanto tempo já se passou, e a sociedade segue dividida. Resquícios daquele cancro que nos desgovernou por quatro longuíssimos anos. Às vezes, assistindo ao noticiário ou rolando os feeds da vidatenho a impressão de que não haverá cura: somos um cristal quebrado.

        O burocrata bate carimbos nos envelopes:

        — Tive problemas com a chefia de antes. Nem gosto de falar o nome dele. Sabe como é: as paredes — e as cartas — têm ouvidos.

        A moça sorri. Acompanho seus dedos deslizarem no teclado, as unhas pedindo pintura.

        — Apesar desse lado bolsonarista, ele é mais acessível que o anterior. Tipo, quando a gente solicita alguma coisa, ele atende; se temos dúvida, ajuda, manda e-mail e até passa os telefones pra onde a gente deve ligar.

        Um “é verdade” meio xoxo escapole da moça. Pesando novamente um dos envelopes, ela comenta:

        — Engraçado. Os dois pesam exatamente igual.

        Óbvio, minha filha: em cada um há um exemplar do meu livro. Prefiro, porém, me calar. Não quero parecer grosseiro ou, cruz-credo, ser confundido com bozoloide — embora o tal Asnésio pareça um ponto fora da curva. Haverá vida civilizada no curral extremista?

        Fico sem resposta: a moça agora quer saber se tenho balança em casa. Não tenho. E acrescento: os livros são iguais, eu os comercializo. Desinteressada no que comercializo ou deixo de comercializar, ela volta ao computador.

 O outro bate mais carimbos:

        — Ele tá viajando com a namorada nova. Bonita, brancona. Nem parece brasileira. Eu vi foto deles numa cachoeira, lá no Rio Grande do Sul. Ela deve ser de lá. Praqueles lados é que tem gente assim, branca que nem leite. Eu gosto dele. Foi quem me arrumou aquela licença no ano passado.

        — Deu 17,85 — informa a atendente.

        Pago no cartão e guardo o comprovante no bolso.

        Na porta da agência, abro o guarda-chuva: a garoa deu lugar à chuva.

O funcionário continua a enaltecer Asnésio, o bolsonarista boa-praça.

Ganho a rua, ainda me perguntando: haverá gentileza e bom senso à direita? 

    

Mineiro da cidade de São Geraldo, graduado em Direito e História, Servidor Público, escritor de contos, poemas e crônicas. Publicou "Confissões", pela Editora Porto de Lenha, e "A vida segue" pela Caravana Editorial. Divulga seus escritos no blog "Reminiscências Literárias", Facebook, Instagram e no site "Recanto das Letras". 

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