Quando os olhos se calam

"Ali, à minha frente, assisto às sensações íntimas do ser. O astro-rei encosta a sua cabeça cansada sobre a linha do horizonte." 

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____Encontrei-o, nos passos que dava pela praia, quando os sons começam a refugiar-se na intimidade do entardecer. Aquele breve intervalo em que o dia chama pela noite para a abraçar.

_____Sentado na nudez da areia calma, parece escutar. Só mais próxima percebo que não segue o sol com o olhar porque não o usa para isso. A luz entra-lhe pela pele. O seu mundo não precisa de ver, apenas de encontrar. Como os que tateiam a beleza das palavras na escuridão antes de lhe traduzirem a música secreta da alma.

_____A brisa muda... uma porta aberta ao tempo. Frágil, indecisa, a aprender a despedir-se.

_____As aves, num desapego lento do dia, velhas senhoras sem pressas em gritos piedosos.

_____A maré e o aroma líquido da terra a chorar sobre o infinito, misturada com o frio da humidade que chega mansamente.

_____E depois, aquele sabor cru do sal. A continuidade da água, que não existe nos seus olhos, pousada sobre os lábios.

_____Não há cores nem exuberâncias. Somente a textura delicada da claridade que nasce dentro dele enquanto a paisagem o aconchega, devagar.

_____Descubro, seduzida, que já não é só aquilo que ele absorve, é tudo aquilo que o toca numa outra linguagem. Porque quando os olhos se calam, o corpo entende muito antes do pensamento. E transforma em encontro.

_____Ali, à minha frente, assisto às sensações íntimas do ser. O astro-rei encosta a sua cabeça cansada sobre a linha do horizonte. E eu reconheço a verdadeira memória de infância que permanece naquela escuridão sem formas definidas, mas plena de sentidos.

_____Tão simples, afinal: só se começa a ver por inteiro... quando o céu deixa de ser o limite.

 

 TEXTO: Paula Freire 

SITE: Nas Minhas Linhas te Confesso... - Crónicas 

Paula Freire é natural de Lourenço Marques, Moçambique, e reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Auto-Conhecimento, bem como à prática de clínica privada. Desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, tendo colaborado regularmente com publicações em meios de comunicação da imprensa local. Prefaciadora e autora das imagens de capa de várias obras no campo poético e narrativo, tem publicado dois livros de poesia, "Lírio: Flor-de-Lis" (Editora Imagens e Publicações, 2022) e "As Dúvidas da Existência: no heteronímia de nós" (em coautoria com Rui Fonseca, Farol Lusitano Editora, 2024). Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza, tendo organizado uma exposição com trabalhos seus, na cidade do Porto (a convite da Casa da Beira Alta), em setembro de 2022, sob o título: "Um Outono no Feminino: De Amor e de ser Mulher".

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A articulista atua como Colaboradora deste Blog e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade. 

                                          

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