"Cá estou com um espécime de reações inesperadas: insatisfeito com a menina, o avô emburrou e não quis conversa pelo resto do dia."
REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica )
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_____Crianças são criaturas interessantes. Interessantes e imprevisíveis. Alegram-se com coisas aparentemente bobas — muito simples — e também se desencantam por nada, num zás-trás. Vejamos o seguinte caso.
_____Perguntada sobre o que queria ganhar no Dia das Crianças, a menina respondeu sem pestanejar:
_____— Um ventilador. De teto, igual ao que minha mãe tem no quarto.
_____A família achou o pedido estranho, um tanto inusitado, mas decidiu não contrariar.
_____— Vocês lembram o que a mãe dela fez quando tinha cinco anos, né? Antes mesmo de abrir, jogou o presente da madrinha longe porque sentiu que tinha roupa dentro do embrulho — recordou o avô.
_____E a avó completou:
_____— Passei uma vergonha danada. Não sabia onde enfiava a cara, com todo mundo olhando.
_____Como a menina puxou à mãe, compraram o ventilador.
_____A geniosa, porém, não gostou. Disse, séria e convicta, que preferia um pote de Nutella. “Daquele grandãozão”.
_____A avó, mais uma vez, ficou sem saber onde enfiar a cara.
_____Mas não são apenas as crianças fonte de imprevisibilidade. Os velhos também.
_____Cá estou com um espécime de reações inesperadas: insatisfeito com a menina, o avô emburrou e não quis conversa pelo resto do dia. Para contemporizar, propus comprar-lhe o ventilador, se dividisse o valor em três prestações. Topou, mas continua com o humor péssimo. Está nos cascos, como se dizia no seu tempo. Se bobear, preferiria manter o ventilador na caixa, guardado no meio das tranqueiras lá na garagem, e fim de papo.
_____Veja o leitor como as pessoas são difíceis.
_____Para não ficar olhando sua cara de limão azedo, fui para o quarto. Liguei uma playlist da Legião e comecei a limpar as gavetas.
_____No meio da papelada, encontrei a seguinte anotação — por coincidência, escrita também num Dia das Crianças:
__________Doze de outubro, Primeiro Ano Pandêmico.
__________A costumeira procissão da Padroeira não passou pelas ruas do Centro. A pandemia ceifa os ânimos até dos fiéis mais disciplinados. Caminhamos para quase setecentos casos confirmados no município (vinte óbitos). No país, mais de cento e cinquenta mil mortes e cinco milhões de positivados. Ainda assim, praias, bares, praças, comércio e afins estão lotados. Tudo caminhando sem rédeas, como se nada estivesse acontecendo. Ou melhor, como se vivêssemos um eterno carnaval.
__________A juventude é indócil, atrevida, e continua desafiando a si, a sociedade, a vida. Irresponsável, recusa-se a cumprir protocolos, isolar-se e deixar de lotar bares, botecos e muquifos que existem apenas com o propósito de nos viciar e arrancar nosso dinheiro. Mas eles, os jovens, não enxergam isso.
__________É preciso, pois, fé para suportar a caminhada. Mas vamos de mãos dadas, como propôs o poeta. De mãos dadas costuma ser mais fácil.
_____Fiquei pensando no que me levou a escrever aquilo, mas desisti. Quatro anos se passaram; impossível lembrar. Aliás, nem sei se vale a pena rememorar tempos de tantas incertezas e temores.
_____Das caixas de som, a canção ensina que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.
_____Não é fácil, Renato. Não é nada fácil.
IMAGEM DA PUBLICAÇÃO: criada pelo Gemini (enviada pelo autor)
Mineiro da cidade de São Geraldo, graduado em Direito e História, Servidor Público, escritor de contos, poemas e crônicas. Publicou "Confissões", pela Editora Porto de Lenha, e "A vida segue" pela Caravana Editorial. Divulga seus escritos no blog "Reminiscências Literárias", Facebook, Instagram e no site "Recanto das Letras".
O articulista atua como Colaborador deste Blog e o texto acima expressa somente o ponto de vista do autor, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.



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