"Não deixe também de visitar o passado, de modo geral. Esse lugar bem decorado, que já mudou tanto e continua sendo o mesmo."
REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica )
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_____Se você veio aqui crente que verá dicas de destinos maravilhosos planeta afora, praias paradisíacas, cidades esquecidas, vilarejos charmosos e museus imperdíveis, errou de texto. Os lugares essenciais ficam mais perto do que se imagina. Não, necessariamente, na geografia. Sobretudo, no afeto. Visitá-los confere certo sentido à vida, garante o caminho pela frente. Duvida? Vamos lá.
_____1. A maternidade onde você nasceu. É possível que pouca coisa, ou quase nada, reste do hospital que lhe recebeu, tempos atrás. Ao transitar pela Recepção e corredores, você não reconhecerá, tampouco será reconhecido por nenhum obstetra e nenhum enfermeiro por ali. Outros bebês chegarão nesse dia, exatamente como você fez, exceto, talvez, por um pouco mais de tecnologia. É a maior prova de que o mundo acerta em suas intermináveis, cíclicas e inelutáveis voltas. E tudo bem se você, ao se imaginar com um dia de vida, ficar com cara de bobo ao passar em frente ao berçário. Todos ali ficam.
_____2. A escola onde você aprendeu a ler e a escrever, quando era deste tamanhico. Se o atual diretor permitir, e se você lembrar, faça o trajeto que sempre fazia, assim que se despedia da sua mãe, ou do seu pai, no portão. Não se espante se, ao olhar para trás, vir um deles acenando para você, com a mesma roupa da foto no porta-retrato que você olha todo santo dia.
_____3. A casa da sua madrinha, se você tiver uma. De preferência, numa visita desapressada, para um chá com rosquinhas. De preferência, que ela mesma fez. Na ausência da madrinha, vale outra tia, uma que você nunca mais visitou e nem sabe explicar por que. De preferência, a que você mais gostava de abraçar quando era criança. E também não sabia por que.
_____4. A vendinha mais antiga do bairro em que você cresceu. Os últimos quinze metros quadrados poupados pela especulação imobiliária, a única sobrevivente do quarteirão, o ícone da resistência urbana. Na falta dela, vale a velha barbearia onde seu pai ia aos sábados, o bazar com papel contact florido nas prateleiras onde sua mãe comprava linha de bordar, ou a loja de brinquedos em que você namorava a boneca que andava, o avião de controle remoto. Tirante a barbearia, não saia sem uma sacolinha, não importa com o quê dentro. Será a sua melhor compra em anos.
_____5. O seu primeiro emprego. Mesmo que o local tenha sido derrubado para dar vez a um shopping center ou estacionamento. Estar de volta ao solo em que você declarou sua independência financeira (ou quase) e aprendeu a beber café em copinho de plástico lhe fará um bem danado.
_____6. A casa do seu primeiro amor – mesmo que ele, ou ela, tenha se mudado de lá há décadas. Não precisa tocar a campainha, nem ficar se explicando para o vizinho que varre a calçada, com ares de inquisição, querendo saber o que você faz ali plantado. Deixe de lado o medo bobo de não ser compreendido; quem não compreende o primeiro amor alheio não há de ser merecedor de amor algum.
_____7. A igreja onde seus pais se casaram. Busque na lembrança todas as fotografias que viu desse dia e refaça, com um buquê imaginário nas mãos, como se fosse daminha de honra ou pajem, o caminho da sua mãe até o altar, onde seu pai a aguardava. Pense que, nesse instante, de alguma forma, você já existia.
_____8. A barraca de churros da feira de sábado, onde você ia com seu avô e sempre pedia para ajudar a carregar a sacola, ou puxar o carrinho. Sem maiores delongas, peça logo uns dez. Empanturre-se ali mesmo, enquanto um feirante anuncia, igualzinho como naquele tempo, que moça bonita não paga, mas também não leva. A felicidade tem sabor de açúcar e canela, meu bem.
_____9. Não deixe também de visitar o passado, de modo geral. Esse lugar bem decorado, que já mudou tanto e continua sendo o mesmo. Só para tirar dúvidas e se certificar de algumas coisas. Resista à tentação de se mudar, ainda que temporariamente, para lá. Entoe o mantra “Estou só de passagem” e volte, no primeiro ônibus, ao presente. Mas fique atento: se passar do ponto, irá parar no futuro. Que poderia ser o décimo lugar, mas não é; o futuro não passa de uma quimera brincalhona e inalcançável. Fiquemos nos nove, mesmo. Já é uma viagem.
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Silmara Franco é paulistana e publicitária. Nasceu em 1967 no bairro da Mooca, onde viveu por mais de três décadas. Hoje vive em Campinas/SP. Resistiu a transferir seu título de eleitor, apenas para poder visitar de vez em quando o colégio onde aprendeu a ler e escrever. Além de cronista, é autora de livros paradidáticos como “Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor” e “Você precisa de quê? A diferença entre consumo e consumismo” (finalista do Prêmio Jabuti 2017), ambos pela Editora Moderna. Manteve até 2021 o blog Fio da Meada. Redes sociais: Facebook e Instagram (fotografia: Helena Pazzetti).
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