O comandante

"Meu pai até hoje lê tudo aquilo que se refere ao mundo dos aviões. Suas revistas Flap se perderam em algum lugar do tempo." 

REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____Não via a hora de o comandante cruzar a sala e aparecer com a revista Flap Internacional debaixo do braço.

_____Durante anos, papai foi leitor assíduo dessa revista. As suas publicações eram mensais e eu contava os dias e as semanas para a próxima edição. Naquele tempo, esta cronista aqui sonhava em ser comissária de bordo da Varig. Cercada de aviões, passei minha infância visitando o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes junto com meu pai. Do seu terraço, eu contemplava as aeronaves, os horários das partidas e chegadas, o Boeing da Transbrasil alcançando voo, levando seu arco-íris com destino a Brasília...

_____Era um clichê básico: nas décadas de oitenta e noventa, as famílias faziam esse passeio. No entanto, para mim, havia uma atmosfera diferente, porque essa paixão foi alimentada pelo meu pai. Na verdade, ele sonhava em ser aviador, cruzar o mundo, ultrapassar os meridianos e trópicos — ser dono do céu e do infinito.

_____E, como dizem que filho de peixe, peixinho é... a aviação andou, ou melhor, voou comigo durante muito tempo. Fiz aulas de inglês, para tentar atingir meu objetivo de estar a bordo de uma máquina a jato. Desejo esse que levei comigo, até meus dezoito anos, quando de fato percebi que voar para mim seria mesmo apenas nas nuvens da imaginação...

_____Meu pai até hoje lê tudo aquilo que se refere ao mundo dos aviões. Suas revistas Flap se perderam em algum lugar do tempo. Agora, o que me resta é ouvir, de vez em quando, suas histórias de menino, suas aventuras no Aeroporto de Ponta Pelada, em Manaus. Seus olhos da cor da noite marejam ao narrar suas experiências de garoto: o ir e vir dos aviões da Panair, os Constellations e DC-3 sobrevoando o rio Negro e as casas da capital manauara.

_____O comandante não voou, não pilotou talvez nem mesmo a sua própria vida. Vida essa que nos leva para viagens cujo roteiro não entendemos. Seguimos para lugares nunca sonhados, lugares distantes que, na sua maioria, moram dentro do coração da gente. 

  


 TEXTO: Mayanna Velame 
INSTAGRAM: @portugues_amoroso 
Mayanna Velame é escritora, poeta e professora nascida em Manaus. É autora dos livros: "Português Amoroso" (2020) e "Cactos e Tubarões" (2023). Foi finalista do Prêmio Selo Off Flip (2022), na categoria conto e vencedora do 6º FLIM (2023), promovido pela Academia Volta-redondense de Letras com o conto: "Professor Jeremias Bartolo". 
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