Vida alheia

"Sem conseguir encontrar palavras adequadas para tal situação, eu me limitei a assentir discretamente com a cabeça." 


REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____Dia desses eu encontrei uma pessoa conhecida, que não via há algum tempo, e que eu soube estar numa condição pessoal desfavorável, bem conturbada. Ele, de maneira muito descortês e sem rodeio, me perguntou aquilo que todos gostam de saber para depois opinar e criticar, flagrantemente querendo me “ensinar” sobre o que fazer. E disparou:

_____— Para quem você vai votar?

_____Esse é o tipo de pergunta que eu não faço e evito responder também. Querendo encerrar o assunto que mal tinha iniciado, eu respondi que “ainda estava acompanhando as notícias sobre política”.

_____A pessoa insistiu:

_____— Como assim?... Já estamos bem perto do dia da eleição e você ainda não sabe em quem vai votar? 

_____Eu respondi:

_____— Eu não disse que não sei como vou votar. Falei apenas que estou acompanhando o noticiário.

_____— Não me diga que você acredita no que diz na televisão?

_____Eu comecei a ficar incomodado, mas procurei me controlar:

_____— Eu acompanho vários meios de comunicação, ouço as notícias e depois tiro as minhas conclusões.

_____— E qual é a sua conclusão?

_____— A conclusão é que eu devo acompanhar os acontecimentos.

_____Visivelmente inquieto, ele continuou com a especulação:

_____— E como é que tem que pensar o seu candidato?

_____Eu tentei manter a clama:

_____— Numa época que estamos, de muita intolerância, não pode ser alguém que acirre ainda mais as divergências. Tem que ser alguém que se preocupe com emprego, saúde e segurança, além de ecologia, é claro! 

_____Ele então disparou sua sentença:

_____— Você está errado! Tem que ser alguém que pense na Economia.

_____— Não sabia que você entendia de Economia. – disse eu.

_____— Não, mas eu tô começando a entender. No grupo de whatsapp que eu participo, eles falam “tudo sobre Economia” e dizem até em quem a gente deve votar.

_____Então eu questionei:

_____— Mas quem é a pessoa que você segue no whatsapp?

_____— É um influencer.

_____Mostrando surpresa (na verdade, talvez não) eu prossegui:

_____— Mas qual é a formação dessa pessoa?

_____— Coach – disse ele, todo convencido por estar muito “bem orientado”.

_____— E você acredita em tudo o que essa pessoa diz no grupo? – insisti.

_____— Claro que acredito! Mas não é só ele não! Outras pessoas também “ensinam” a gente. Tem até um pastor que fala tão bonito, revela qual é a “vontade de Deus” e o que a gente deve fazer na eleição. Você entendeu?

_____Claro que eu estava entendendo. Com intenção de por fim ao assunto, voltei à carga tentando concluir:

_____— Bem, eu penso que a maior referência é que seja alguém que se preocupe com boas condições de vida para as pessoas e que procure focar nas questões sociais e humanas.

_____Surpreso, ele arregalou os olhos e levantou a voz:

_____— Espera, espera um pouco!... Não acredito!... Então eu acho que já sei em quem você vai votar. Que absurdo! Olha, vou explicar uma coisa que você não está entendendo direito. Veja bem...

_____Eu nem me dei ao trabalho de questionar sobre o que o tal sujeito estava imaginando a meu respeito, já que ele supunha ter o “dom de adivinhação” e a certeza de que sempre “sabia de tudo”. Nesse instante meu celular tocou – Ufa!... Fui salvo pelo gongo!

_____Enquanto eu atendia ao telefone, eu notei que ele se mostrava agitado, precisando continuar urgentemente com a conversa. Assim que a ligação terminou, eu disse que precisava ir porque tinha algo importante para fazer e que precisava ser naquele momento.

_____Com olhar de decepção, ele não desistiu:

_____— Mas, já!... Eu preciso falar com você por esses dias, mas tem que ser logo, tá? Antes da eleição para que você faça tudo certinho e não vote errado, tá bom?

_____Sem conseguir encontrar palavras adequadas para tal situação, eu me limitei a assentir discretamente com a cabeça. Mas ele não se deu por vencido:

_____— Puxa, que sorte a gente ter se encontrado, não é mesmo?

_____Eu simplesmente tornei a balançar a cabeça e sorri sem graça, me despedindo daquela figura, que se julgava um “poço de sabedoria”.

_____O mundo está cada dia mais se tornando um lugar estranho. Justamente a pessoa que tem dificuldade de cuidar de si mesma permite-se ser bombardeada diariamente por fontes duvidosas. Toma qualquer informação como “conhecimento pleno” e considera-se um profundo conhecedor de todo e qualquer assunto. Esse é exatamente o tipo de vítima inconsciente (ou não), que sente uma necessidade patológica de (inter)ferir na vida alheia.

_____E assim tropeça a humanidade... 


Paulo Cesar Paschoalini nasceu em 20 de março de 1960 em Piracicaba-SP. É graduado em Licenciatura em Filosofia, escritor de poesias e contos, com premiações em Concursos nacionais e internacionais, tendo textos de ambos os gêneros publicados no exterior. Seu livro "Arcos e Frestas" foi selecionado no "3º Concurso Blocos de Poesias" e publicado em 2003. Publicou recentemente o livro de poesias "Mar adento, mundo afora", pelo "Clube de Autores", no ano de 2024. Foi premiado na categoria crônicas em eventos literários e alguns de seus textos foram publicadas no Jornal de  Piracicaba em 2001, 2002 e 2005. É compositor (letrista) de vinte músicas de diversos estilos, em parceria. Está trabalhando no original de seu livro de contos, que contém 20 textos desse gênero e aguarda patrocínio/parceria para lançamento. 

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