"Meu camarada, o que vi de Santa Ceia, Mona Lisa e natureza morta mal-ajambradas pelos apartamentos por onde passei, não tá no gibi."
REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica )
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_____Oi. Tudo bem?
_____Desculpa invadir seu quarto assim — ainda mais a esta hora. A chuva caiu de repente, né? De repente e forte. Mas isso você já percebeu.
_____Concordo: sempre que chove, as telhas fazem uma barulhada danada.
_____Hein? Como sei disso?
_____Ora, num é a primeira vez que venho aqui. E você costuma falar sozinho, né?
_____Longe de mim criticar. Pelo contrário, acho bacana. Eu, por exemplo, vivo tagarelando comigo mesma.
_____Consequência da minha solitude, né?
_____So-li-tu-de.
_____Desde que ouvi essa palavrinha num áudio que você compartilhou, me assumi como um ser que vive em solitude.
_____Melhor que aquela outra que você sapecou na sua crônica: misantropo.
_____Como? Uai, li sim. Não sou burra, muito menos analfabeta.
_____Li e achei, com o perdão do trocadilho, um barato. Um barato total. Que nem aquela dona que canta nessa caixinha aí.
_____Aliás, meu camaradinha, que voz! Divina e maravilhosa!
_____Bote mais músicas dela, faz favor.
_____Sim. Ouço o que você ouve, leio o que escreve e vejo o que você vê na televisão. E no celular.
_____Keep calm, man, keep calm!
_____Minha boca é um túmulo.
_____Mas, cá entre nós, você num desperdiça tempo demais, não?
_____Longe de mim censurar, muito menos bancar a moralista. E vou confessar: lá donde venho, também rolam dessas coisinhas.
_____Ô se rola!
_____Mas, enquanto os humanos exibidos que você assiste brincam a dois ou a três, no máximo, o meu pessoal se diverte em grupo. Dezenas, às vezes centenas, de parceiras no mesmo embalo.
_____Assim é que o negócio fica bom.
_____Hein? E num vi o vídeo de ontem?
_____Estava ali, ó, assistindo de camarote.
_____Opa, opa, opa. Olha lá como fala.
_____Indecente é o que você costuma fazer enquanto os vídeos se sucedem.
_____Não julgo: cada um curte do seu jeito. E tá tudo numa nice.
_____Ah, ouvi isso no apartamento vizinho.
_____Sim, aquele coroa é chato pacas. E as coisas que diz são meio démodé, né?
_____Por isso corro pra cá.
_____Aqui, por exemplo, me divirto passeando por esses quadros.
_____Você que pinta!?
_____“Pinta como eu pinto?”
_____É assim que o vizinho falou com o rapazinho que pintou o corrimão.
_____É, também acho sem graça.
_____O que você trouxe essa semana, achei interessante. O impressionismo me agrada.
_____Como?
_____Você acha que sou tapada?
_____Claro que manjo de arte.
_____Meu camarada, o que vi de Santa Ceia, Mona Lisa e natureza morta mal-ajambradas pelos apartamentos por onde passei, não tá no gibi.
_____O seu quadro me agrada.
_____Não é, convenhamos, nenhum Renoir. Mas combina com sua personalidade.
_____Ah, outro dia ouvi sobre o olho do gato.
_____Também achei ridículo o que comentaram lá no estúdio.
_____Ora, qualquer imbecil vê que esse bichano trepou na mureta pra olhar o horizonte.
_____E aí vem aquela estúpida perguntar “quede o olho do gato”?
_____Meu camarada, fosse comigo e eu respondia na lata: “Com o gato de costas, minha tia, só dá pra ver o olho do cu”.
____E num falava?
_____Perdoe a franqueza: você é polido demais e aguenta muito desaforo.
_____Sim, sei das coisas que acontecem na sua repartição.
_____E depois dizem por aí que sou detestável...
_____É cada sapo que você engole, né, companheiro?
_____Mas sobre isso de engolir sapos não posso opinar: minha espécie não come anfíbios, batráquios e coisas do gênero.
_____Agora que a chuva amainou, vou cair no capinado.
_____Como?
_____Ah, volto, sim.
_____Qualquer dia eu volto. Pra comentar sobre seus desenhos.
_____Olha, gostar até gosto. Mas você num tá passando um pouquinho da conta, não? Muito pau, muita xota, muito peito e muita bunda pro meu gosto.
_____Se, pelo menos, tivesse uns exoesqueletos definidos e uns pelos desejáveis, umas patas cheias de espinhos e umas antenas bem compridas...
_____Pense nisso.
_____Se precisar, visite aquele meu outro camaradinha, o Kafka.
_____Um barato de humano, ele.
_____Vai pensar?
_____Fico satisfeita.
_____Se faço pensar, é sinal de que sirvo pra algo mais nesta vida passageira que causar nojo, susto, repulsa e pânico.
_____Bem, já falei demais.
_____Bye.
IMAGEM DA PUBLICAÇÃO: criada pelo ChatGPT (enviada pelo autor)
Mineiro da cidade de São Geraldo, graduado em Direito e História, Servidor Público, escritor de contos, poemas e crônicas. Publicou "Confissões", pela Editora Porto de Lenha, e "A vida segue" pela Caravana Editorial. Divulga seus escritos no blog "Reminiscências Literárias", Facebook, Instagram e no site "Recanto das Letras".
O articulista atua como Colaborador deste Blog e o texto acima expressa somente o ponto de vista do autor, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.



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