A indecorosa arte de existir

"Questiono-me quando terá sido o momento em que começámos a confundir o nosso direito à liberdade com a ausência de consideração com o outro..." 


REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____Uma comum manhã de domingo. Daquelas em que o dia ainda não decidiu o que fazer de mim. Em que gosto de caminhar devagar, desfrutar das horas sem horários. E em que me apetece aquele pouco da vida: saborear a rara tranquilidade de nada exigir a minha atenção e a singela felicidade de um café pingado junto à janela. Nada de extraordinário senão esta minha pequena ambição sem laivos de grandeza.

_____Haverá prazeres tão modestos que nos façam arrepender de os desejarmos?

_____Sento-me. A chávena é pousada sobre a mesa. E a humanidade, por compaixão, decide sentar-se também para me acompanhar. Talvez eu lhe pareça demasiado só. Exageradamente deslocada... desacertada.

_____À minha frente, um homem em videochamada, partilha os pormenores da sua vida privada com uma generosidade que ninguém lhe pediu e um fulgor que me desobriga de todo o esforço de escuta. Fala sem reservas. A presença de desconhecidos e o meu nenhum anseio por conhecer as tramas que ocupam o seu estado de vida, são-lhe completamente indiferentes. O interlocutor mostra idêntico empenho no diálogo. Nenhum vê razão plausível para amenizar a voz na transmissão dos pormenores que impõem ao mundo.

_____Mais ao lado, duas mulheres ocupam-se de vidas alheias, como se participassem numa maratona para serem reconhecidas pela audiência. Atropelam-se uma à outra com receio de que as palavras possam escapar às suas ordens. É difícil para o ouvinte compreender se o espalhafato é pelo gozo do mexerico ou somente pela necessidade de nenhuma se sentir privada do prazer de se ouvir a si mesma. Passo a ser senhora de particularidades sobre existências que desconheço e relativamente às quais não pretendo formular opiniões.

_____Próxima, excluída do falatório, uma criança, que suponho seja filha de uma das ditas mulheres, joga no telemóvel. A sonoridade insistente do aparelho mostra o triunfo do eletrónico em cada explosão virtual que intenta contra as dimensões daquele espaço onde, de modo obviamente iludido, momentos antes me imaginara na companhia de um livro e dos meus pensamentos.

_____Mais duas crianças correm soltas e imprevisíveis, entre as mesas, em voltas e contravoltas, gritos e guinchos, alienadas de perigos que não escolhem idades. Procuro, com os olhos, os pais. Não encontro nenhum rosto que pareça querer assumir essa responsabilidade. Estou em crer, com todas as forças, que talvez tenham sido apanhados pelo torvelinho de energia a girar pelas inúmeras distrações daquele cenário. Mas não resisto à hipótese da ingenuidade lhes ditar que a educação certa se rege pelo método da espontaneidade, tal qual o germinar de uma planta, isenta da presença de quem a lança à terra.

_____Atrás do balcão, a atender um cliente, uma funcionária conversa acaloradamente e ri-se com estrepitosas gargalhadas, numa intimidade concedida a freguês habitual, esquecida dos restantes. O colega que a acompanha incumbe-se da louça suja. São chávenas a esbarrar contra pratos, pratos a colidir com a pia. Seguidos do defunto cafeínico à pancada com o caixote, com uma firmeza tal que me leva a ponderar existirem ali desavenças pessoais entre ambos. E finalmente, a maquinaria entra no frenesim. Chia freneticamente com verdadeiro entusiasmo.

_____Entretanto, o fumo dos cigarros infiltra-se pela porta aberta e invade-me os sentidos já desnorteados, ao mesmo tempo que percebo algazarra empolgada lá fora. Pelo ímpeto das vozes, preparo-me para assistir a uma discussão hostil, com direito ao lugar de espetadora privilegiada. Mas não. Não se trata de disputa pública. Só dois conhecidos no seu habitual modo de saudação por entre uns quantos e longos berros com variados palavrões à mistura. Uma singular e popular revelação de amizade.

_____Observo tudo isto com estupefação e constato que ninguém se mostra incomodado, exceto eu. Não encontro razões para prolongar esta minha experiência. Termino o café e saio. Reconheço que o apetite por ser contemplado conhece excêntricas formas de triunfar.

_____Para trás, deixo também a música ambiente a ultrapassar os limites aceitáveis de decibéis, manifestamente selecionada para regozijo de quem por lá trabalha. Uma sinfonia, talvez severa para ouvidos sensíveis, abafada pelo alarido da clientela que não lhe oferece oportunidade de expressão. A marcar compasso com o volume da televisão, num desfile de escândalos e infortúnios empurrados para além das fronteiras das mais triviais desgraças.

_____Num rompante, uma mota invade a rua com alarde. O condutor, brioso da conduta, insiste no acelerador e faz grunhir o seu brinquedo com explosões sucessivas, faminto de olhares e cativo da soberana vontade de se exibir. Uma passagem de poucos segundos mas suficiente para me sacudir ainda mais o juízo e o espírito. Parece-me que o pior dos meus olhares lhe vale mais ao ego do que a inexistência de todos os outros.

_____Enquanto regresso a casa, percebo que não posso fazer uso de tamanha irritação para construir uma teoria sobre a humanidade. Esta tem problemas bastante mais graves do que a minha dificuldade em beber café, cercada por uma orquestra cacofónica, ou do que a minha exasperação perante quem faz do inoportuno e impróprio a sua melhor maneira de protagonismo, confundindo a repulsa com admiração.

_____Certamente, os cafés não devem ser transformados em mosteiros, as crianças não podem desenvolver-se em abstinência de movimentos, as conversas entre nós serem conduzidas como se estivéssemos num confessionário ou esperar que engenhos e motores estejam predestinados a um recolhimento espiritual. A alegria não é uma afronta ou a descontração um defeito ou imperfeição.

_____Mas não consigo deixar de refletir sobre esta algaraviada que infeta os nossos dias. Questiono-me quando terá sido o momento em que começámos a confundir o nosso direito à liberdade com ausência de consideração pelo outro e que a primeira se mede pela extensão do incómodo que conseguimos causar, incapazes de reconhecer quem partilha o mesmo espaço connosco. Em que altura a regra que passou a prevalecer é a de que cada um pode comportar-se como se os que estão ao seu redor fossem meras circunstâncias dispensáveis.

_____Não consigo deixar de pensar que existe uma fome voraz por se ser ouvido, compreendido, atendido nas suas necessidades, desejos, aspirações. E que nos falta essa competência fundamental para vivermos alguns minutos de silêncio sem a avidez de os preenchermos; mantermo-nos em comunicação sem a presunção de dominarmos. Falha-nos a capacidade para permanecer num ponto do planeta sem a ânsia desesperada de o ocupar por inteiro.

_____O comportamento humano fala muito acima de qualquer voz ou ruído. E tudo isto nos revela a existência de uma coisa excecionalmente grave que nos recusamos a escutar: vivermos com a nossa própria companhia tornou-se largamente difícil de suportar.

_____Para mim, continuo a procurar uma mesa junto à janela, o meu café pingado e alguns minutos de sossego num sítio, sem que todos almejem conquistá-lo.

_____A paz não pode ser um luxo. Muito menos a arte de existirmos, uma medíocre vulgaridade.

 

 TEXTO: Paula Freire 

SITE: Nas Minhas Linhas te Confesso... - Crónicas 

Paula Freire é natural de Lourenço Marques, Moçambique, e reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Auto-Conhecimento, bem como à prática de clínica privada. Desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, tendo colaborado regularmente com publicações em meios de comunicação da imprensa local. Prefaciadora e autora das imagens de capa de várias obras no campo poético e narrativo, tem publicado dois livros de poesia, "Lírio: Flor-de-Lis" (Editora Imagens e Publicações, 2022) e "As Dúvidas da Existência: no heteronímia de nós" (em coautoria com Rui Fonseca, Farol Lusitano Editora, 2024). Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza, tendo organizado uma exposição com trabalhos seus, na cidade do Porto (a convite da Casa da Beira Alta), em setembro de 2022, sob o título: "Um Outono no Feminino: De Amor e de ser Mulher".

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