Rolim: o reencontro de ser criança

"Hoje com esse livro em mãos, recordo-me quando o vi pela primeira vez. Ao retirá-lo da mochila me encantei de imediato."  


REVISTA VICEJAR – LITERATURA ( Crônica ) 

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_____Era um sábado típico de mormaço em Manaus. Caminhava pela Rua 24 de Maio, quando entrei na célebre Livraria Nacional, na busca de comprar alguns livros usados. Ao correr meus dedos sobre os mais variados títulos, ancorados nas prateleiras, avistei a obra Rolim de Ziraldo, acenar para mim feito criança.

_____Para situar o leitor, Rolim é um livro infantil do famoso escritor e desenhista Ziraldo, publicado na década de 80 (Coleção Corpim). Nele, temos a história de Rolim, um umbigo que expressa suas sensações e emoções em relação ao mundo.

_____Sempre carrego comigo que a literatura tem um senso de afeto. Há entre nós e o livro uma conexão emocional, que somente a ficção pode nos proporcionar. Quando encontrei naquela prateleira, entre tantas obras, Rolim, pude reviver a menina de sete anos que um dia fui. Naquele tempo, eu estudava numa escolinha de bairro na zona centro-oeste de Manaus. Folheava cada página de Rolim com intenso entusiasmo, lia as aventuras daquele umbigo, que pensava ser o Sol — o maior umbigo de todos e que tinha como sonho — ser o umbigo da Garota de Ipanema.

_____Hoje com esse livro em mãos, recordo-me quando o vi pela primeira vez. Ao retirá-lo da mochila me encantei de imediato. Na capa, o nome Rolim em letras garrafais. As ilustrações de Ziraldo, logo chamaram minha atenção: um umbigo redondinho e enroscadinho realizando suas proezas.

_____Quarenta anos depois, Rolim volta a fazer meu coração pulsar de alegria. Os tempos, agora são outros e a Literatura corre riscos, os livros incomodam e as incertezas do amanhã nos cercam.

_____Depois de algumas horas rodeada de centenas de obras. Tomo o livro em minhas mãos e pago o que devo. No caminho de casa, desfaço-me da embalagem e Rolim reluz. Do carro, vejo a cidade de Manaus cinzenta e esfumaçante...

_____Sim, agora os tempos são outros. Quando criança, jamais me desiludi com os homens, com a vida e com o mundo. Rolim me vê hoje com rugas nas esquinas do meu olhar e com as têmporas expostas ao inevitável grisalho.

_____Volto minha atenção para o livro e num breve momento, abro um sorriso. Sinto um certo conforto ao percorrer essas páginas já conhecidas por mim. A vida passa, ao longo da viagem, Manaus para nos semáforos apinhados de carros. Não tenho pressa, Rolim está aqui comigo, trazendo-me um tanto de ternura e esperança por dias melhores. 

 

IMAGEM ORIGINAL: bbc.com/portuguese/brasil 


 TEXTO: Mayanna Velame 
INSTAGRAM: @portugues_amoroso 
Mayanna Velame é escritora, poeta e professora nascida em Manaus. É autora dos livros: "Português Amoroso" (2020) e "Cactos e Tubarões" (2023). Foi finalista do Prêmio Selo Off Flip (2022), na categoria conto e vencedora do 6º FLIM (2023), promovido pela Academia Volta-redondense de Letras com o conto: "Professor Jeremias Bartolo". 
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